creative director, copywriter

Crônicas

30 anos amanhã

Outubro, 2018

Algo de extraordinário aconteceu quase 30 anos atrás. De repente uma sucessão de acontecimentos, incrivelmente agrupados em um mesmo ano, deixaram dogmas, verdades absolutas e limites para trás, como se uma combinação secreta deflagrasse uma série de fatos que tornariam possível o mundo de hoje, com toda a tecnologia, cultura, liberdades e restrições que a gente vive. Muitas vezes sem se dar a menor conta.

Incrivelmente, tudo se precipitou no muy loco ano de 1989.

2019 vai ser um ano marcante para nós, brasileiros. As razões são óbvias. Todos torcem para que as mudanças que chegam sejam para melhor. Muitos temem que aconteça o pior. O que realmente vai rolar, ninguém sabe. Enquanto isso eu convido você para relembrarmos o espantoso ano da graça de 1989.

14 de fevereiro, Teerã

A forte resposta dos muçulmanos ao livro “Versos Satânicos”, do escritor britânico de origem indiana Sir Ahmed Salman Rushdie, é terrível. Protestos raivosos no Irã, na África do Sul e no Paquistão, bombas em livrarias de Berkeley e uma reação mortal da polícia indiana contra manifestantes muçulmanos em Mumbai, cidade natal de Rushdie. Tudo começa com a fatwa editada pelo Aiatolá Khomeini, líder religioso do Irã, exortando os muçulmanos do mundo a executar uma sentença de morte contra o escritor. Rushdie até hoje recebe proteção 24 horas por causa da sua obra, considerada uma blasfemia pelos muçulmanos e descrita por seu autor como “um livro não sobre o Islã, mas sobre migração, metamorfose, dupla identidade, amor, morte, Londres e Mumbai.” Uma manifestão global pré-internet sem precedentes que influencia até hoje — e para pior — a relação ocidente-oriente médio.

14 de fevereiro, Cabo Canaveral

Seis e meia da tarde. Decola do Cabo Canaveral o “Space Vehicle Number 14”. Do tamanho de um automóvel médio e com este nome prosaico, o número 14 é o primeiro de 24 satélites que formam a rede GPS, uma das tecnologias mais globalizadoras da história. Sem o GPS, o mundo que vivemos hoje não seria possível.

20 de Março, Geneva

Em 1989, a internet recém engatinhava como alternativa comercial viável. Até que Berners-Lee, trabalhando no laboratório europeu CERN, em Geneva, escreveu o Hypertext Transfer Protocol, o popular HTTP, a linguagem que permitiu trocarmos documentos pela rede. E, de lambugem, também criou o primeiro browser, chamado WorldWideWeb; a linguagem HTML, que tornou possível a criação de páginas web; e o primeiro software para servidores para que estas páginas fossem armazenadas e acessadas por terceiros.

26 de maio, Copenhague

A primeira lei que permite o casamento gay é aprovada pelo parlamento dinamarquês. No dia primeiro de outubro, Axel e Eigil Axgil saem da prefeitura de Copenhague como o primeiro casal gay legalmente unido. Detalhe interessante: na Dinamarca, o percentual de casais heteros que se divorcia é de 46%. O de homossexuais, apenas 17%.

4 de junho, Beijim

O debate sobre as liberdades individuais nunca foi tão livre na China como em 1989. Na Universidade de (na época) Pequim, alunos e professores discutiam animadamente sobre assuntos até pouco tempo considerados proibidos pelo governo. Tudo parecia possível e o futuro discutido pelos estudantes chineses parecia brilhante, até que a grande concentração que se formou na praça Tiananmen foi reprimida com altíssima violência, provocando um massacre de civis — na sua maioria estudantes — e sepultando qualquer esperança de mudar o estado absolutista chinês. Por mais que o episódio tenha iniciado o longo e vagaroso processo de abertura sócio-econômica na China, nada disso era necessário.

Julho, Manchester

O verão de 1989 no hemisfério norte curtiu Stone Roses, Happy Mondays e toneladas de ecstasy, a droga que tornou possível o segundo “summer of love” (o primeiro foi nos anos 60, mas quem participou não lembra mais exatamente em que ano). O centro de toda essa loucura lisérgica era a cidade de Manchester e, mais precisamente, o clube Haçienda, com seus DJs doidões mixando democraticamente tudo o que passava pelas mãos. Depois de uma temporada sombria de punks e pós-punks, a Inglaterra pulava para outra dose de criatividade musical que rendeu a cidade-sede do movimento o apelido de “Madchester”.

5 de outubro, Oslo

Na língua tibetana, Dalai Lama significa Oceano de Sabedoria. Os tibetanos se referem a ele como Yeshe Norbu, “a gema que concede todos os desejos”, ou simplesmente o chamam de Kundun, “a presença”. Mesmo com Lhasa, capital do Tibete, sob lei marcial chinesa e milhares de tibetanos mortos pelas tropas de ocupação, o Dalai Lama nunca deixou de se manifestar a favor de seu país com calma, pedindo diálogo e paz, e utilizando uma estratégia surpreendente que deixou os chineses ainda mais enfurecidos e violentos — e por consequência mais isolados pela comunidade global: ao invés de pedir independência, ele começou a defender a autonomia do Tibet. O Dalai Lama recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989 “em nome do povo tibetano”. Mais que o prêmio, ele recebeu do comitê do Nobel a visibilidade que seu povo e seu país tanto precisavam naquele momento.

9 de novembro, Berlim

Em maio, no Congresso dos Deputados do Povo, em Moscou, uma nova verdade estava no ar e esta pode ser resumida em uma frase do líder soviético Mikhail Gorbatchov: “Karl Marx viveu no século dezenove e não pode fornecer respostas para todas as questões de hoje.” Para desespero dos líderes linha-dura da cortina de ferro, Gorbatchov desmantelou o bloco comunista pedra por pedra. A queda do muro de Berlim foi o momento pop de um processo complexo, arriscado e de grande coragem pessoal. Foi a derrubada de uma parede que não dividia apenas um país, mas um continente inteiro, e que empacava uma idéia de mundo contemporânea que patinava sob a ótica medieval dos cadáveres andantes do comunismo. A Alemanha unificou-se em questão de anos, a Iugoslávia virou pó, os chineses tiveram que se adaptar, mas com o jeitinho oriental: bem devagarinho. Por um momento, o mundo até pensou que a história havia acabado. Claro que não. Mas quem viveu este momento, vai guardar para sempre a sensação de que tudo seria melhor dali em diante.

13 de dezembro, Cidade do Cabo

Em 1989, o Apartheid completava 41 anos de existência e Nelson Mandela, 26 anos de prisão. No dia 13 de dezembro, Mandela foi escoltado da cadeia direto para a residência oficial do presidente da África do Sul, FW de Klerk. Uma conversa inédita entre os dois principais líderes sul-africanos não resultou no fim do regime racista, mas após idas e vindas, violência, morte, acusações e recuos, Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990 para ser eleito o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994.

17 de dezembro, Los Angeles

Uma comédia sobre uma família de classe média americana estrelada por personagens amarelos e mal-desenhados. O pai é um idiota glutão que trabalha em uma usina nuclear, o filho uma peste que atormenta seus professores — que também são um bando de idiotas. A cidade onde moram, um antro de corrupção e maus sentimentos. Tudo nos Simpsons é negativo, errado, violento, venal, crítico e absolutamente brilhante. A série americana mais popular da história foi o divisor de águas da TV, que foi virada de cabeça para baixo e nunca mais foi a mesma.

30 anos depois, o casamento gay ainda é assunto para ganhar ou perder votos e programas políticos mostrar o muro de Berlim para nos ameaçar com uma revolução cuja motivação, o comunismo, esfarelou junto com ele. Ideias medievais sobre nacionalidade, cor, raça e religião evocam um novo apartheid. As tecnologias criadas lá no distante 1989 são usadas para manipular corações e mentes. E o mundo parece habitado por personagens que fugiram de um episódio lisérgico dos Simpsons.

Talvez a única saída seja abraçar o budismo.

Saul Duque