creative director, copywriter

Crônicas

Marylin

Agosto, 2012

Quando ainda era criança, encanei com o nada.

Tentava imaginá-lo, o grande espaço vazio da não-existência. Mas só o fato de imaginar o nada me fazia pensar que, se eu espiava para o nada, logo o nada existia. E se ele existia, por consequência não havia o nada.

Com a cabeça fervendo com isso, descobri que Marilyn Monroe havia morrido no mesmo dia em que eu nasci. No dia D da minha vida, Marilyn havia partido para o vácuo.

O cabeção aqui traçou então algumas hipóteses para esta peculiaridade cronológica. Todas envolvendo a mim, Marilyn e, é claro, o nada, que era onde ela deveria estar agora.

A mais terrível delas: na lógica particular e cósmica do meu cérebro infantil, para eu nascer alguém precisava morrer. Logo, eu era o responsável pela partida de Marilyn Monroe para o lugar-nenhum.

Deste jeito, mesmo em uma idade onde ainda não tinha como entender tudo o que MM representava, ela já era uma figura perturbadora para mim. Acho que por isso vi todos os filmes com ela e li muito a respeito dos complôs assassinos que supostamente a mataram. Uma morte que sempre voltava em datas importantes como os dez, vinte, trinta, quarenta e cinquenta anos de vida minha. E morte dela.

Marilyn Monroe virou mito em uma época onde a ingenuidade ainda era possível para uma estrela de primeira grandeza. Fingida ou verdadeira, essa inocência não tem mais espaço no esquemão vip-celebridade contemporâneo.

Hoje, qualquer coadjuvante do Big Brother já entra em cena turbinado de cinismo, catedrático da fama disposto a fazer quase qualquer coisa. O quase é um exagero meu.

Ela foi a última representante desta ingenuidade, que ficou congelada nos anos 60 e que sempre volta para nos assombrar com seu vestido branco, batom vermelho e peruca platinada. Eventualmente ao lado de um Chaplin meio gordo ou meio alto demais.

Talvez por isso, toda a mulher que encarna o mito, reparem, age diferente. Como se tivesse superpoderes. Uma heroína capaz de seduzir todos os homens, com olhos, lábios e curvas que a destacam dos mortais. Sexy e triste como toda heroína deve ser.

Todo dia 5 de agosto, eu e a morte de Marilyn Monroe fazemos aniversário. A minha tese, não. Esta já morreu faz tempo. Foi para o nada, onde certamente não vai encontrar o mito, que está mais vivo do que nunca.

Saul Duque