creative director, copywriter

Crônicas

O paradoxo de Nei Lisboa

Abril, 2010

Muito se fala mal de Porto Alegre, do seu trânsito, dos seus administradores, dos seus habitantes, do seu clima, dos seus restaurantes, da sua violência, escolha você mesmo a chinelada que quer dar na cidade. É um esporte municipal falar mal de Porto Alegre.

Por mais que muita coisa seja verdade, é bom morar aqui. Mas dói. Um amigo meu, o Fabiano Goldoni, disse no aniversário da cidade que "É melhor viver com saudade do que viver aí." Ele é publicitário, morou em Buenos Aires, está em São Paulo e traduz o sentimento de muita gente.

Mas, sejamos sinceros: com todas as suas mazelas - e muitas delas são iguais em todo o Brasil - Porto Alegre é uma cidade adorável, confortável e deliciosamente pequena. Eu gosto de morar aqui.

Mas a cidade tem uma relação muito cruel com o talento e a criatividade. E este é o paradoxo Nei Lisboa do título. Explico.

Nei Lisboa é um enorme talento. Grande compositor, sujeito inteligente, porto-alegrino de quatro costados. Tem letras geniais. Tem canções que fazem parte da história da cidade. É um cronista afiado da vida urbana local, tem a ironia fina e o humor dos grandes artistas.

Em (quase) qualquer outro lugar do mundo Nei Lisboa seria rico. Seria muito mais importante do que efetivamente é para Porto Alegre. Mais reconhecido, mais consultado e mais homenageado. Um talento ímpar que resolveu permanecer na cidade, negou-se ao êxodo. Se ele fosse natural de Denver, Colorado, por exemplo, ou Marne-la-Vallée, na França, teria estátua.

Se fosse canadense, já haveriam diversas coletâneas de homenagem à sua obra, com interpretações de K.D. Land, Neil Young, Cowboy Junkies e Leonard Cohen. Se fosse inglês, o chamaríamos de Sir Lisboa, ou Knight Nei. Se fosse argentino, sua imagem enfeitaria o altar central da Iglesia Neilisboniana.

Mas Nei Lisboa fez carreira em Porto Alegre, uma cidade que inexplicavelmente empurra muitos dos seus talentos para fora, sejam eles das artes, do jornalismo, da moda, da fotografia, da propaganda, da arquitetura, do futebol, tanto faz.

Para mim é um paradoxo. Um povo tão exigente, uma cidade com tanto potencial e esta arrogância ingênua de que o poço nunca vai secar, ou que os talentos vão continuar surgindo sem que haja talentos já experientes para orientá-los. E que os talentos que aqui permanecem, como o Nei Lisboa, vão viver de luz.

Toda a vez que eu ouço o Nei eu penso nisso. Penso em todos os meus colegas publicitários espalhados pelo Brasil e pelo mundo, nos músicos, nos atores, nos designers, nos talentos que a gente enche a boca para dizer que exportou. E que fazem tanta falta a esta cidade que eu amo.

Se eu pudesse dizer alguma coisa para eles, pediria que voltassem. Porto Alegre não tem dinheiro suficiente. Não tem oportunidades suficientes. Não tem teatros, ou cinemas de rua suficientes. Não tem incentivo oficial que baste. Mas tem o Nei Lisboa. Isto eu posso oferecer a vocês.

Saul Duque