A gente dorme e o mundo gira
Estranho. A pequena mancha em forma de mapa da Itália sumiu. Ainda ontem ela estava lá, exatamente em cima de mim, centralizada em meu campo de visão quando olho para cima com meu pescoço apoiado no travesseiro dobrado. Se os pés da cama são o sul, minha pequena Itália estaria ligeiramente inclinada para oeste, como se a bota chutasse a Sicília para o meio do Mediterrâneo. Estaria, pois neste exato momento, sumiu. Agora tudo que existe é um branco absoluto.
Via Appia, ao sul de Roma. O caminho imaginário que eu percorria em minha pequena Itália suspensa sempre foi aquecimento para o meu sonho mais recorrente. Sophia Loren em um Fiat Spider conversível. Eu na Via Appia, pedindo carona. Ela passa por mim sem dar a mínima, a placa indica Roma a duzentos quilômetros. O carro some no horizonte, corro atrás dele e invariavelmente acordo banhado em suor e com uma dor lancinante na canela esquerda. Antes de acordar, entretanto, vejo Benito Mussolini, fardado da cabeça aos pés com o uniforme do Roma. Ele corre ao meu lado e grita: “A poltrona e as pantufas são as ruínas do homem!” E chuta minha canela esquerda.
Só que agora a mancha sumiu. Tudo é branco. Tento imaginar a Sibéria, alva e fria, os seus contornos borrados pela neve incessante que se espalha por todo o teto do meu quarto. Adormeço. Mikhail Gorbatchev em um Lada Niva. Fumaceira dos diabos. Peço carona, ele passa por mim sem dar a mínima. A placa diz que Moscou está a nove mil quilômetros. Tento correr, algo impossível com neve até os joelhos. Maria Sharapova com a farda da Guarda Vermelha corre ao redor de mim, graciosa como se estivesse em uma quadra de saibro, e grita: “Somos todos estudantes e nosso professor é a vida e o tempo!” Pergunto: “Essa é sua?” “Não”, diz ela, “essa é do Gorbatchev”. E me acerta uma raquetada. Acordo suado e com uma incrível dor de cabeça.
Dona Lourdes aparece para cobrar o valor da faxina. Aproveita para me contar o trabalho que teve para tirar aquela mancha em forma de lombriga do teto de meu quarto. À noite, percebo no teto uma nova mancha, disforme, redonda no centro e com duas pontas nas laterais que apontam para cima… a China! E amarela. A Dona Lourdes avisou que a clorofina poderia coisar a tinta.
Mao Tsé-Tung dirige um garboso Shuanghuan 4x4. Ele está em rota de colisão com a muralha da China. Tento avisá-lo, mas ele não entende porra nenhuma de português. A placa ao largo da estrada diz alguma coisa, mas eu também não entendo porra nenhuma de chinês. Corro para longe da colisão eminente. Jackie Chan corre ao meu lado vestido de mulher. Ele canta “Do you think I’m sexy?” do Rod Stewart. “Rod Stewart uma ova, essa ele roubou do Jorge Ben!”, grito eu. Jackie me acerta um golpe de caratê nos países baixos e responde: “Se a tua dor te aflige, faz dela um poema.” Me contorcendo de dor, pergunto: “Essa é sua, Jackie?” “Negativo.” — diz ele — “Essa é de Queiroz.”