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Contículos

A queda

O velho aspirador de pó pesava uma tonelada.

Diana não sabia porque sua mãe ainda guardava aquilo. Modelo foguete, chamavam, todo de metal, uma raridade. Quem carregava a tralha era dona Miriam, a empregada que já trabalhava na casa dos pais de Diana antes dela nascer. As duas andavam lado a lado em uma das ruas arborizadas da Cidade Baixa, percorrendo a fileira de casas antigas geminadas. Apesar de já ser maio, o calor do verão não havia cedido. Um bafo quente subia do chão úmido de chuva, aumentando a sensação térmica.

Dona Miriam não tinha muito mais do que um metro e meio. Índia pelo-duro da fronteira, trabalhava na capital desde adolescente, fazendo com energia o serviço doméstico pesado. Muitas garotas pobres e sem estudo do interior percorriam esse caminho sofrido até a velhice: chegavam novinhas na cidade grande, arrumavam emprego em uma casa de família, as que tinham sorte eram babás, as menos afortunadas gastavam mãos, joelhos e a saúde esfregando chão e lavando vidraças.

Era o caso de dona Miriam, há 40 anos com a mãe de Diana. Arrastava o aspirador de pó pela rua fazendo um ruído metálico nas pedras da calçada. Marcas de suor nas axilas, equilibrando-se nas havaianas high fashion douradas herdadas da patroa, dois números maiores que o seu, a velha empregada percorria as quatro quadras até a casa de Diana em silêncio. Duas peças de museu, uma carregando a outra. Formavam um conjunto harmonioso com o casario desgastado. Máquina, gente e arquitetura, todos tentavam manter a dignidade com um certo esforço.

Até que a fachada despencou.

Talvez tenha sido a chuva forte, talvez tenha sido a vibração das britadeiras da companhia de água. Ou a fadiga natural dos materiais. Ou todas as coisas juntas. A mão francesa enferrujada não resistiu mais ao peso do ornamento que segurava e um grande naco de alvenaria desprendeu-se do prédio, passou por cima da cabeça de Diana e acertou dona Miriam.

O estrondo fez toda a rua vir para as janelas. Diana, estática, olhava para o corpo caído da empregada. A cabeça jazia sob tijolos. A mão esquerda ainda segurava firme a mangueira do aspirador. Uma das havaianas havia sumido. O vestido levantado pelo deslocamento de ar revelava uma ponta da calcinha. Um cachorro, saído sabe-se lá de onde, gania e lambia o pé sem chinelo. Pessoas em câmera lenta bailavam ao seu redor. Diana olhou para o vidro da janela à sua frente e não reconheceu a roupa que vestia. O que seriam aqueles minúsculos pontos vermelhos em sua camisa branca?

Incrivelmente, dona Miriam sobreviveu.

Ao mesmo tempo em que os 150kg de escombros caíam sobre ela, o chão molhado e escorregadio escapava sob as havaianas gastas, grandes demais. A pequena senhora decolou do chão, agarrada inutilmente à mangueira do aspirador, jogando para cima o corpo em forma de cápsula do modelo foguete, uma peça robusta de aço inoxidável. O destroço aterrissou sobre o aspirador, que era feito para durar. E dona Miriam, milagrosamente, bateu apenas com a cabeça no chão, protegida pelo eletrodoméstico. Salvou-se, mas não escapou do traumatismo craniano e de um coma induzido.

Diana saíra de casa para fazer nada. Há meses, sua vida estava vazia. A falta de atividade, o sono até o meio-dia, as noites em frente à tv assistindo qualquer canal sintonizado por seus pais aumentavam cada vez mais a distância e a crítica de sua mãe. Suas longas jornadas em direção ao nada eram intercaladas com brigas terríveis. Ninguém aguentava mais, por isso resolveu se mudar. O dinheiro que tinha dava para uns seis meses de prolongada inatividade, em um apartamento só seu.

Assim como nada era o seu atual objetivo de vida, ignorar totalmente a empregada que caminhava ao seu lado fazia parte do fácil caminho em direção à dormência. Enquanto dona Miriam arfava tentando equilibrar a grande máquina aspiradora com seus pequenos membros, Diana empunhava sem esforço a pequena máquina celular, olhando vazia para a tela cheia. Alheia ao esforço da parceira de caminhada. Desatenta à grande rocha artificial que passou raspando por cima da sua inexistência até ser violentamente resgatada de seu torpor pelo grande estrondo.

Diana viu o resgate de dona Miriam acontecer sem mexer um músculo. O corpo minúsculo da empregada sumiu para dentro da ambulância, as pessoas se dispersaram. Sobrou apenas o aspirador de pó, que após cumprir seu destino heróico de salvador de vidas humanas, havia sido reduzido a metal retorcido. A mangueira havia sumido junto com dona Miriam. Ninguém conseguiu tirá-la do aperto de sua mão esquerda.

O grande espelho da sala refletia o sol do fim de tarde, enchendo a peça de luz. Os pingos de sangue tinham uma simetria espantosa e brilhavam contra a superfície branca da blusa de algodão. Diana percebeu que seu rosto também estava borrifado de vermelho, pequenas sardas de estranhamento dela com o espelho. Lentamente, ajoelhou-se sob o peso da tragédia. Não a de dona Miriam, mas dela mesma. Diana estava só fazia muito tempo. Ermitava em uma existência sem sentido. Percebeu que aqueles pequenos pingos de hemácias mortas em seu rosto tinham mais vida que ela.

As lágrimas que caíram dos olhos de Diana pesavam feito escombros.

Depois de cinco dias, dona Miriam acordou. Precisou de mais uma semana no hospital para se recuperar. Para a irmã caçula, que veio da fronteira visitá-la, contou que um anjo a salvou da morte. Que nunca a deixou sozinha. Que durante a escuridão do coma lhe soprou palavras de luz. Uma criatura tão celestial, mas ao mesmo tempo tão concreta, que ainda sentia o aperto forte em sua mão.

Buda uma vez disse que nossa tarefa no mundo é descobrir nosso trabalho e então, com todo o coração, dedicar-se a ele. Dona Miriam, que não tem a menor ideia de quem foi Buda, é a prova viva disso. Ela também nunca soube dos doze dias que Diana passou ao lado do seu leito. Nem que a cura que aconteceu naquele quarto de hospital não foi apenas a sua.

Saul Duque