creative director, copywriter
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Contículos

O grande branco

Palavras são palavras nada mais do que palavras.

Francisco ouviu aquilo há muito tempo em um programa de televisão. Na verdade, não tinha certeza se tinha sido na tv. Incrível como lembrava da frase completa. Talvez por sua repetição e ritmo aquilo estava gravado na cabeça dele. Assim como os gagos cantam melhor do que falam, Francisco ainda conseguia memorizar algumas frases. Mais pelas características formais delas, menos pelo seu conteúdo.

A cada dia ficava mais difícil compor sentenças. Por alguma razão desconhecida, Francisco estava perdendo as palavras.

Menino estudioso de notas altas, Chiquinho passou rápido e fácil pela escola. Fez o vestibular de letras aos 17 anos e entrou na federal. Incentivado pelos professores, Chico começou a escrever pequenos contos e ensaios. Fã de Tolstói e Nabokov, era apaixonado pelos detalhes e descrições elaboradas dos russos, seu ritmo e paralelismos. Coração. Vermelho de cor, vermelho de ação.

A maneira como Francisco compunha seus textos tinha estilo e personalidade. Se não era o orador da turma por sua voz fina, era o redator oficial dos discursos, a pena de aluguel mais disputada. De cartas de amor terceirizadas ao refinamento final de dissertações, era ele a pessoa a quem buscar. O Chico das palavras.

Sabiás e fios, piscinas e bem-te-vis; postes e joões de barro, estufas e colibris. A civilização assobia: quero os pássaros aqui.

Colher.

Como?

Colher, Chico. Você quer a colher.

Ahn.

O primeiro sintoma de que algo estava errado foi na mesa do café da manhã. Francisco não conseguiu lembrar o nome daquele instrumento doméstico metálico de cabo achatado e cabeça côncava. Pôs a culpa na cerveja a mais da noite anterior. Mas se o substantivo foi o problema da primeira refeição do dia, ao chegar na aula não achou o adjetivo para responder a chamada.

Francisco?

Presente, professor. Ele está aqui, do meu lado.

Atônito, Francisco espremeu a cabeça para que saísse uma resposta, mas nada veio. Estranhamente, o que os colegas respondiam, indagados pelo professor, era uma palavra estranha, como se fosse algo em uma língua estrangeira que ele não entendia. O problema era grave e não apenas mecânico: não era a incapacidade de falar, mas a ausência do termo em seu cérebro.

É como se fosse um grande… aqui dentro, apontava para a cabeça.

Ressonância. Ecografia. Radiografia. Radiologia. Tomografia, tomo tuas palavras, tiro-te a grafia. Nenhum exame detectou coisa alguma. Talvez seja psicológico, arriscou o neurologista. Mas não havia trauma. Nem pesadelos. Nem mudança de rotina.

Assim como uma nova palavra ajusta-se ao objeto como um vestido novo, a ausência das velhas deixava Francisco intelectualmente nu. Pelado de termos, a situação o tornava um nudista verbal. Seu irmão teve uma ideia: comprou um livrinho para turistas onde havia centenas de imagens agrupadas por assunto para serem apontadas na hora do aperto em terras de língua desconhecida. Francisco olhava desolado para as páginas de frutas e vegetais tentando lembrar o nome daquela infrutescência de forma cilíndrica e casca escamosa e áspera, cheiro doce agradável e coroa de espinhos.

Que abacaxi, mano, mas a gente vai dar um jeito. trouxe esse livrinho pra você se virar até a gente achar uma solução.

O que ninguém sabia, nem Francisco, nem seus amigos, nem os especialistas médicos, ou seus professores, era a irreversibilidade da situação. Francisco veio ao mundo com cinco milhões, quatrocentas e trinta e quatro mil, oitocentas e quinze palavras, incluindo as repetições, armazenadas em seu córtex cerebral. Não tinham data de validade, mas eram finitas. As ainda disponíveis encontravam-se na casa das centenas e diminuíam rapidamente. A maioria eram artigos, estes monossílabos inúteis na ausência de sujeitos, adjetivos e advérbios. Esse estranho fenômeno, que não traria problemas para um religioso em voto de silêncio, um ermitão no alto de uma montanha ou a Buster Keaton, sinalizava para ele um triste e melancólico fim.

Francisco quebrou com facilidade a tranca da janela da biblioteca da faculdade e dirigiu-se à estante dos dicionários. Empilhou no chão cuidadosamente um Michaelis, um Houaiss e um Aurélio. Passou o nó corrediço da corda no pescoço e subiu na pilha de três livros, olhando com rancor para o Houaiss. E pulou no vazio. Foi encontrado na outra manhã, com uma nota de despedida no bolso:

Palavras são palavras nada mais do que palavras.

Palavras são palavras, nada mais.

Palavras, nada mais.

Nada mais.

Nada.

Saul Duque