Pistaches
Ana observou os pistaches sobre a mesa. Pareciam uma batalha naval.
Os que estavam inteiros haviam sido organizados em colunas e fileiras, como se fossem a grande frota imperial japonesa singrando o Pacífico rumo a Pearl Harbour. As cascas vazias jaziam espalhadas sem nenhum método, algumas emborcadas como navios atingidos, outras viradas para cima feito embarcações fantasmas, ocas de suas tripulações, preenchidas de solidão. Um aviso às castanhas ainda inteiras e em formação do seu destino inevitável.
A dieta noturna de pistaches e uísque já completava uma semana. A ausência de Celia, também. Um vazio tão tridimensional que era como uma presença. A escova de dentes no banheiro. A revista aberta no sofá. A caixa de sucrilhos em cima do balcão. Ana não ousava tocar em nada. Eram provas da evaporação de Celia de sua vida. Eram a cena do crime.
A via crucis de delegacias, hospitais e necrotérios já estava completa. Mas, ao contrário da jornada original do salvador, o caminho em direção ao calvário de Ana não deixou marcas de sangue. Apenas uma chaga enorme em seu coração.
Foram dois meses de amor intenso que evaporaram em uma manhã de sexta-feira. O beijo de despedida em frente ao apartamento, a cara de reprovação da velhinha do 101, o carro de Celia dobrando a esquina. E então o vácuo. Uísque, pistaches e Maysa na vitrola.
Ana pouco sabia de Celia. Sentaram-se no mesmo sofá na área de repouso do shopping, Celia pediu ajuda com a senha de wi-fi. Trocaram olhares.
E se a gente fosse no cinema agora?
Peanuts, o filme?
Por que não?
Atravessaram o corredor, entraram no cinema e antes de Snoopy e Charlie Brown aparecerem na tela, o beijo. Dali para o apartamento. 60 dias intensos. Ana sorriu. Peanuts. Pistaches, pensou.
O prazer da lembrança durou pouco. Mas disparou uma série de memórias. Celia era arquiteta. Visitava fábricas de móveis no interior. Dormia por lá, voltava no outro dia. Ligou uma vez do celular de Ana quando o seu ficou sem bateria.
Estava lá: prefixo 054. Ligou.
Móveis Schmidt, bom dia.
Desligou rápido. Google. Irmãos Schmidt Ltda. Morro Reuter, RS 373, estrada para Gramado. Ligou de novo.
Móveis Schmidt, bom dia.
Bom dia. Perdão, caiu a ligação. Sou cliente da arquiteta Celia.
Sim, já mandamos o orçamento, dona Raquel.
Recebi, obrigada. Mas, olha, meu celular foi roubado e perdi o número dela.
Que estranho, ela também foi assaltada e levaram o celular. A senhora tem o número de casa?
Prefixo 054 também.
Você tem certeza que é 054? Porto Alegre é 051.
Ela mora em Gramado, não sabia?
Ana conferiu novamente o endereço ao passar pelo pórtico de Gramado. Mais cinco minutos. Levou quinze, pois em Gramado os carros param na faixa de pedestre. A casa era grande, estilo enxaimel. No jardim da frente brincavam duas crianças, morenas de olhos claros como Celia. O carro com placa de Porto Alegre estava em frente à garagem. Outro carro chegou, placa de Gramado. As crianças correram em direção ao homem que desembarcou. Os três entraram abraçados pela porta da frente. Aberta por Celia.
Quando a gente defeca, a passagem das fezes ativa o nervo vago. O nervo vago sai do crânio, atravessa o pescoço e o tórax até o abdômen e leva impulsos nervosos ao estômago e ao intestino delgado. Esse impulso provoca a diminuição dos batimentos do coração e do fluxo de sangue para o cérebro. A sensação que isso dá é de relaxamento, arrepios, tontura. Em alguns casos, desmaio.
Não há nada mais próximo de um orgasmo do que isso.
Ana dormiu dentro do carro. Pela manhã, procurou pela porta dos fundos e entrou na casa vazia. Subiu as escadas, Chegou no banheiro do casal e cagou. Cagou de verdade, com revista e celular, dando tempo ao tempo. Percebeu um aroma de pistaches no ar, mas talvez fosse apenas sua imaginação. Gostou da sensação de ocupar os canos, impregnar o ambiente, deixar vestígios na lata de lixo. Esvaziar-se por dentro. Evacuar sua frustração.
Não puxou a descarga.
Saiu da casa aliviada. Não conseguiu imaginar jeito melhor de mandar Celia à merda.