Juarez Vídeo
Juarez sempre soube surfar a onda da sua profissão. Publicitário bem sucedido, trabalhou nas grandes empresas do setor, elegeu algumas figuras de quem ele não compraria um carro usado, ganhou os prêmios certos, na hora certa, nos lugares certos.
Mas Juarez estava de saco cheio. Principalmente com as pessoas.
Não que ele não gostasse do que fazia ou dos diversos tipos de gente com quem convivia, mas sua paciência estava por um fio. E, por mais forte que fosse sua personalidade e a defesa que fazia do seu trabalho, Juarez era um sujeito educado, conhecido por sua civilidade. Por isso decidiu abandonar tudo. Mudar de vida enquanto ainda tinha dinheiro e saúde suficientes.
Planejado como era, estudou as possibilidades. Queria diminuir ao máximo seu contato com as pessoas. Não queria clientes. Não queria colegas. Não queria equipe. Não queria fornecedores. Juarez decidiu abrir uma locadora de vídeo em Viamão.
Um negócio quase extinto em uma cidade quase rural. O que mais um misantropo poderia desejar?
Juarez alugou um sobrado antigo em uma rua esburacada e sem calçamento. Pagou quase nada por um lote de fitas VHS que encontrou em um brechó da cidade. Locadora embaixo, residência em cima. Como bom publicitário, escolheu a data perfeita para a inauguração: fevereiro, sexta de carnaval. E pendurou na fachada uma placa pintada à mão:
Juarez Vídeo.
Foram meses gloriosos de solidão e filmes antigos com chuvisco e som abafado. Honrando a tradição de inauguração, a locadora só abria às sextas. No resto da semana, Juarez ficava vendo suas fitas de baixa qualidade com a porta fechada. E tudo corria bem.
Até o dia em que o Waze levou equivocadamente o Uber de Diego e Andressa até a frente da Juarez Vídeo. O rapaz, ao ver aquela preciosidade, pediu para o motorista dar uma paradinha, pois aquele lugar não contaminado pela cultura mainstream tinha que ir para o seu Instagram.
#viamao #disrupcão #cool #juarezvideo — add location.
Dias depois, bateram na porta. Estranho, pensou Juarez, ainda era cedo para medirem o gás e os relógios de luz e água eram lá fora.
“Oi tio, tem… (abre papelzinho) …“Uma noite alucinante”, do Sam Raimi?”
Juarez olhou para o motoboy do Rappi sem entender o que estava acontecendo.
Na semana seguinte, Juarez alugou sete vídeos, um recorde. E todos os clientes foram buscar pessoalmente seus filmes. Ele notou também que a rua, tão tranquila, agora tinha um movimento extraordinário. Bicicletas vintage ficavam encostadas na parede da locadora enquanto seus donos pesquisavam no acervo da Juarez Vídeo.
“É claro que existe uma espécie de mecanismo de auto-preservação. Só isso pode impedir a linha de tempo de se desintegrar. O Delorean enguiça nos momentos-chave do filme para evitar que alguém encontre a si mesmo em uma linha de tempo diferente, criando um paradoxo capaz de destruir o universo.”
“Meu, isso é muito Hegel, muito ‘conhecer a fronteira e estar consciente de que ela é a fronteira já é transcender a ela.’ Massa.”
Aos poucos, os finais de tarde de sexta naquela rua tranquila foram sendo substituídos por animados encontros, no princípio hidratados com cerveja artesanal gelada em caixas térmicas. Até o dia em que abriu no sobrado ao lado a Hebrewster’s, uma microcervejaria Kosher. No andar de cima, instalou-se uma barbearia vintage cuja linha barba e cabelo era toda produzida com matéria-prima do seu vizinho de baixo.
Do outro lado da rua, o conjunto de casas antigas de arquitetura açoriana sofreu um retrofit para entrar no Airbnb. Um mercadinho retrô. O BurnOut, restaurante orgânico com pratos preparados em fogo de chão. A Fixie Bike customizadora, o OctaToo, tatuagens com tinta de polvo.
Mas o centro pulsante, o pilar identitário, a engrenagem motriz daquela rua continuou sendo a singela locadora de vídeo que Juarez vendeu seis meses depois a um fundo investidor de startups para ir morar em Porto Walter, no Acre, onde nenhum dos 10 mil habitantes têm carro. Nem videocassete. nem nada.