O nariz
Desde que me conheço por gente, sou louco por narizes. Aliás, antes de ter noção de alguma coisa, já era atraído por eles. Nasci no interior, família de classe média. Quem me trouxe ao mundo foi uma parteira, amiga antiga de minha família, uma enorme freira alemã com um nariz proporcional ao seu volume corporal. Estava eu tranquilo no útero de minha mãe quando suas enormes mãos me puxaram daquela quentura úmida e confortável. E para ver melhor o garoto cabeçudo e macilento que hesitava em sair e não colaborava, Gerda — esse era o nome dela — enfiou a cara no meio das pernas de minha mãe, bem lá no meio, bem na hora em que eu comecei a aparecer.
A primeira coisa que eu vi na vida foi, então, o colossal nariz de Gerda, made in Germany, formato de asa delta, narinas aerodinâmicas, base sólida precipitando-se inexoravelmente para formar o triângulo onde duas chaminés industriais arfavam rente ao meu rosto no esforço de retirar-me de meu paraíso materno. Minha primeira sensação real pós-parto foi um misto de espanto e admiração. Espanto pelo tamanho daquele nariz que me ameaçava, incisivo. Admiração por sentir que aquelas mãos macias e experientes eram de sua propriedade e me supriam de tudo que eu necessitava naquele momento de total fragilidade. Talvez isso explique um pouco minha fixação.
No berço eu chorava e gritava na presença de qualquer uma das muitas mulheres de minha família, todas lindas, altas e loiras (Na colônia alemã, qualquer aglomeração de mais de três mulheres jovens é uma filial da Elite Models). Mas quando Gerda vinha em meu socorro, sorria dócil e acabava com o berreiro à primeira visão daquela pirâmide de Quéops que ela carregava no meio do rosto. Foi minha primeira paixão. A tenra idade não permitia que eu tivesse um controle de qualidade mais eficiente, baseando minha escolha apenas na quantidade. E como se antecipasse o meu destino, já era uma paixão difícil de ser concretizada. Pela diferença de idade e pelo fato da schwester Gerda já ser casada com Jesus.
Cedo, ainda tropeçando no alfabeto, ganhei de um tio da capital uma história em quadrinhos: Asterix e Cleópatra. O texto ainda era difícil para mim, mas eu sabia de cor que o nariz da rainha do Egito era elogiado 9 vezes nas 48 páginas da historinha. Fique fã de Asterix. E Cleópatra foi a minha segunda paixão.
Até que na escola conheci Samira, uma libanesa de nariz adunco que parecia ter um quebra-molas entre os olhos. Começamos a namorar, mas nossa primeira ida ao cinema foi um desastre. Depois de uma troca de olhares mais profundos na penumbra do cinema, não vacilei: beijei com sofreguidão seu nariz. Samira, apavorada, fez tal escândalo no cinema que as luzes tiveram que ser ligadas. Aos gritos de tarado, fui expulso da sala.
Na adolescência, ficava horas na praça, ou sentado na beira da praia, observando não as curvas, ou as retaguardas, nem os modelos mais ousados de biquínis. Meu negócio era comparar, mensurar, catalogar com obsessão científica os mais diversos tipos de narizes femininos. Mulheres se dissolviam na minha frente tornando-se apenas narizes, que desfilavam perante meus olhos, flutuando sem suas donas.
Até que conheci Vilma.
Morena de olhos azuis, cabelos cacheados, fala pausada, Me apresentaram Vilma em uma situação de trabalho. Bonita, charmosa, porém o detalhe que fez tocar o alarme na minha cabeça, bem, não preciso falar.
Neste momento faço uma pausa para contar que, neste momento de minha vida, meus estudos de filosofia e sociologia haviam moldado meu senso estético e provocado uma mudança qualitativa nas minhas preferências anatômicas.
A visão de Vilma me paralisava. Não ouvia o que ela falava, apenas olhava para aquele nariz. Ele era pequeno demais para ser grande. Porém, grande demais para ser pequeno. Em suma, era um nariz nunca visto, único, singular. Uma flecha que apontava para um par de olhos claros, os quais só notei depois de uma profunda análise daquele nariz extraordinário.
E então, o que você acha?
Acho que a arte é até mesmo aparência de si própria na medida em que pretende ser o que não pode ser: algo perfeito num mundo imperfeito.
?
Theodor Adorno.
…
Teoria Estética.
Até mesmo o nome era perfeito: Vilma era a musa de meu herói intelectual, Adorno. Mas o caminho até o coração dela não era nada fácil. Táticas de aproximação foram tentadas e abandonadas. A garota era como uma fortaleza medieval, encastelada em seu trabalho, com muros altos erguidos por sua família e um fosso profundo de distância social entre nós (apesar de não ter o nariz empinado).
Até aquela festa da faculdade de Filosofia.
Decidi que minha paixão deveria deixar para trás seu idealismo platônico. Estava na hora de, aristotelicamente, materializá-la. Optei, entretanto, por uma tática cartesiana.
Vilma. Eu sei que já estou meio bêbado, mas, por mais que você possa duvidar de tudo sistematicamente, você não pode duvidar dos meus reais sentimentos. Estou apaixonado por você. Você é a razão de minha existência. Amo ergo sum.
?
Te amo, logo existo.
Deu certo. Obrigado, René.
Minha vida agora era um mar de felicidade. Os dias passados com Vilma eram Kierkegaardianos: eu era livre para escolher minha experiência. E acreditava com todas as minhas forças que era moralmente errado esquivar-me da responsabilidade de fazer aquele nariz ser feliz. Mas, no horizonte, nuvens cinzentas se agrupavam.
Entramos na fase dos segredos compartilhados. Das demonstrações de confiança absoluta. E em uma dessas conversas românticas veio a revelação.
Vilma, você tem algum segredo? Eu não quero segredos entre nós.
Eu também não, meu amor. Vou te contar o meu maior segredo.
…
Meu nariz.
?
Eu fiz plástica.
!
Algo dentro de mim se rompeu. O nariz de minha adoração era uma criação humana e não de Deus. Aquilo abalou minha fé. Se Deus não pôde criar o nariz que me fez parar de pensar em todos os outros narizes, então a vida não tinha mais sentido. Há apenas fluxo e caos. Nietzsche tinha razão.
Não queria mais ver Vilma. Não suportava a verdade. Ela me procurava em todas as partes, mas agora era eu que me encastelava. E minha fortaleza era em Santa Cruz do Sul.
Passei meses na casa de Gerda. Velhinha, não tinha mais o vigor prussiano de quando a conheci, mas o nariz parecia ainda maior naquele corpanzil encolhido pela idade. Os dias na sua companhia me deixaram mais tranquilo, mas sua tentativa de me demover do rompimento foram rechaçadas uma a uma.
Meine lieben, a gente precisa aceitar os defeitos dos outros. A história de vocês é tão linda, ela precisa ter um fim. É como dizia o Jürgen: Es hat alles ein Ende, nur die Wurst hat zwei.
Que lindo aquilo em alemão. Gerda citando Jürgen Habermas! A filosofia esquentou minhas veias. Um relance de luz surgiu no meu céu de nuvens cinzentas. Será que eu tinha uma chance?
Gerda, que bonito isso. Mas eu não entendi completamente, você poderia traduzir?
Claro: Tudo tem um fim, só a linguiça tem dois. Jürgen, o açougueiro, costumava dizer isso sempre.
Me convenceu na hora. Era tempo de voltar para Vilma. Não poderia desprezar um conselho do xará de Habermas.