creative director, copywriter
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Foi tudo muito rápido.

Quando percebi o animal já estava pendurado na minha calça, mas felizmente errou a perna por milímetros. O susto foi grande, eu pedalava na rua e o bicho estava parado na calçada, preso por uma guia frouxa na mão da sua dona. Só deu tempo de desviar para longe e por sorte não vinha carro. Na verdade foi uma clássica situação cão/bicicleta, que na ordem dos clássicos caninos só fica abaixo da situação cão/carteiro. O estranho de tudo isso foi que parei atordoado alguns metros à frente e a mulher continuou de costas para mim como se nada tivesse acontecido.

Foi por isso que eu voltei.

Daí a coisa toda desandou. Minha tentativa de conversa foi um desastre e a cada pergunta que eu fazia sobre o Alexander - esse era o nome do cão - mais agressiva a dona ficava. E talvez isso tenha ativado algum instinto animal que eu nem sabia que tinha e que me fez seguir os dois, primeiro tentando conversar em tom civilizado e depois lomba abaixo rumo aos primórdios da linha evolutiva. Quanto mais eu insistia, mais a mulher ficava brava e mais eu fica nervoso. O Alexander, entretanto, era a paz em quatro patas com sua paradoxal bandana vermelho Bloods amarrada no pescoço. Um vira-lata simpático, olhando para a minha cara com a língua de fora, totalmente alheio aos latidos que eu e sua dona estávamos trocando. Foi a atitude do cão que mandou o australopithecus que eu não sabia que tinha dentro de mim de volta para seu cantinho reptiliano em meu cérebro. De onde ele nunca deveria ter saído.

Já havia sido mordido por dezenas de cães. Mas foi a primeira vez que um dono rosnou pra mim.

Incrível como as pessoas andam agressivas hoje em dia.

Só percebi a bicicleta quando estava a centímetros de distância e é claro que o Alexander se assustou, coitado. Um cachorrinho meigo como ele, acostumado ao apartamento, não pode conviver com esse tipo de ataque. Sim, porque o jeito que a bicicleta passou por nós foi como se fosse uma agressão. Mesmo que estivesse na rua e nós, na calçada.

E o sujeito ainda veio falar comigo. Falar o quê?

Se ele acha que andar naquela velocidade é normal, o que faria ao se aproximar de nós? E para que nos seguir?

Evitei o máximo que pude, até troquei de calçada, mas ele continuou atrás da gente. Entre ligar para a polícia e me afastar o mais rápido possível optei pela segunda estratégia. Vai saber qual a reação. Mas não adiantou. Um homem enorme, uma bicicleta enorme, agora em cima da calçada e em minha direção. E a gritar.

Não sei onde vamos parar com tanta intolerância. Todo mundo se acha dono da rua e quer impôr sua vontade para os outros. Calçadas e parques não são mais seguros nem para humanos, nem para animais. E daí essa situação. Em momentos assim é que as pessoas se revelam. Gente desse tipo não sabe conviver com as próprias falhas e por isso torna-se agressiva ao invés de se colocar no seu lugar. Na verdade, essas pessoas estão mesmo é tentando parecer superiores para si mesmas. Tenho pena delas.

Fazem caridade, deixam o carro em casa, reciclam lixo, mas é tudo alimento para o ego. O que querem mesmo é parecer melhores do que os outros.

Rapaz, que diversão.

Não é sempre que uma bicicleta passa tão perto de mim. Nem que a minha guia está tão solta que eu posso dar o bote. Mirei na parte mais molinha da canela, mais para a lateral do que no osso, mas acabei pegando só na calça. Falta de prática.

Não tenho nenhuma queixa da minha vida de apartamento, não tenho histórico de abuso ou de frustração como aquele doberman que vive na quitinete do terceiro andar, mas de vez em quando o sujeito tem que deixar seu instinto extravasar.

Se você perguntar para qualquer cão, desde o mais puro-sangue até mestiços como eu, a resposta vai ser a mesma: não há nada mais divertido do que correr atrás de uma bicicleta. Caçar um carteiro, talvez, mas estes andam raros. Quase ninguém mais manda cartas e a Amazon, ultimamente, usa direto a FedEx. Além disso, pode ser um assaltante disfarçado de carteiro. E eu detesto barulho de tiro mais do que rojão de ano novo.

Meu instinto de predador não me deixaria desperdiçar uma oportunidade dessas. Um pulo em ângulo ascendente, sem latir para não alertar o dono da perna. O cálculo do ponto futuro, o alvo em movimento.

Você já leu Jack London? Tem um livro dele chamado Antes de Adão que eu comi quando era filhote que fala do sonho recorrente que os humanos têm de estar a cair e acordar antes do tombo. E ele diz que quem tem o sonho é descendente do macaco que conseguiu agarrar-se no galho e se salvar do lobo que estava embaixo da árvore. Porque quem caiu, não procriou.

Eu sou descendente do lobo que comeu o macaco. Porque aquele que ficou esperando e o macaco não caiu, morreu de fome.

É por isso que nenhuma ração, água filtrada, roupinha de gente ou bandana de gangue de Los Angeles vai me fazer renunciar a uma boa caçada. Faz parte da minha natureza animal. Me faz sentir vivo.

Só que tudo isso perde a graça quando do teu lado tem dois humanos a brigando feito bestas. Porque não tem coisa mais ridícula, mais otária, do que animal racional dando uma de irracional.


Saul Duque