Maicon
Sempre que Maicon falava seu nome as pessoas estranhavam. Não é comum um senhor de 80 anos se chamar Maicon.
O nome se popularizou no Brasil por causa do sucesso de Michael Jackson nos anos 80. Muitos bebês Maicon viraram jogadores de futebol Maicon na virada do século e hoje temos Maicons em todos os continentes. Mas esta é outra estória.
O nosso relato é que Maicon – possivelmente o primeiro Maicon a pisar na face da terra – estava fazendo 80 anos. E seguia para casa, sentado à janela da terceira fila, lado do cobrador, com a cabeça levemente apoiada no vidro do linha 195/TV, que recém entrara na Correa Lima para começar a subida rumo ao morro Santa Tereza.
Levemente é força de expressão. Maicon pensava na vida. Nas décadas de solidão que também completava naquela sexta-feira. Na sua escolha por ser quem era e não quem os outros gostariam que ele fosse. E as consequências que essa decisão trouxe para sua vida.
Desde criança Maicon foi o palhaço da turma. O pirralho que ficava de quatro atrás do colega para outro empurrar. O arroto solitário no momento de concentração da turma de 4ª série primária do Grupo Escolar Souza Lobo. O xampu com anilina azul no chuveiro do clube. O diabo.
O tempo, esse capital que aplicamos com frequência nos ativos que mais nos desvalorizam, aprimorou sua técnica.
E já na adolescência Maicon era um profissional da pegadinha.
Perdeu namoradas mas não perdeu a piada. Marcou cinema com os pais no cine Carlos Gomes, famoso pelas sessões duplas de putaria que exibia 24 horas por dia. Fez o irmão dirigir 200km de madrugada para buscá-lo em uma delegacia em Passo de Torres, do outro lado do rio Mampituba, enquanto ele imitava o delegado que supostamente o prendeu direto de um boteco em Porto Alegre.
E esta foi a última vez que se falaram. Por telefone, seu irmão pensando que falava com o delegado Siqueira. A mulher de Selton, grávida, fez o marido prometer que nunca mais falaria com Maicon. Promessa cumprida até seis meses atrás, quando ela faleceu.
Selton estava com 76 anos e sentia pena do irmão. Com o filho estudando fora e a mulher já morta, Maicon era a única família que tinha por perto. A ausência da esposa e a terapia haviam amolecido o coração dele, que há um mês planejava uma festa surpresa para o irmão. 80 anos. Um acontecimento importante demais para se passar sozinho.
Pouco a pouco Selton contatou e convenceu amigos, colegas, ex-namoradas, parentes distantes, um grupo de desafetos do irmão, quase todos beirando os 70, e os desarmou. Contou que Maicon ocupava um quarto e sala na subida do morro Santa Tereza e trabalhava no arquivo histórico da cidade, em uma mesa no subsolo com vista para uma montanha de papéis empoeirados. Que jantava sempre com o único amigo que nunca ligou para suas piadas: Kaufman, o vira-lata, até o bicho morrer de velho. Que nas suas cada vez mais frequentes conversas com o irmão sentia que ele mudara. E que, raios, ele já tinha pagado com um ostracismo digno da Grécia clássica a sua propensão ao mau gosto.
Conseguiu reunir 9 pessoas. Bom, cabiam todos no quarto e sala. O zelador foi compreensivo e abriu o apartamento para eles, que esperavam por Maicon no escuro, com bebidas, salgadinhos e um bolo de aniversário com velinhas.
Maicon, por sua vez, subia o morro de ônibus pensando nos seus 80 anos. Catalogando por décadas os conhecidos que tinham se afastado dele. Ao descer do coletivo, já havia chegado a 1997. Fazia um esforço para lembrar do que aconteceu depois daquela data quando percebeu que, naquele ano, já não tinha sobrado nenhum amigo.
Subiu as escadas do prédio sem elevador e colocou a chave na fechadura. abriu a porta e todas as luzes se acenderam. Pessoas gritando. Uma nuvem nos olhos. O sangue fugindo da cabeça. A queda.
Maicon teve um ataque cardíaco quase fulminante. Caiu sobre o tapete puído e abriu os olhos para ver o rosto do irmão. Selton inclinou-se:
Você está bem?
Maicon tentou falar, mas as palavras não saíam. reconheceu sobre ele nove rostos familiares envelhecidos. Preocupados. Uma sensação quente e agradável tomou conta dele. Relaxou. Com a pouca força que lhe restava, chamou o irmão mais perto. Sussurrou no seu ouvido:
Puxa o meu dedinho…
Maicon?
Puxa o meu dedinho…
Selton hesitou, mas puxou o dedinho de Maicon. Que peidou. Soltou um último suspiro. E morreu feliz.