creative director, copywriter
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Contículos

Pessoas nas ruas

Ritchie vivia entre dois mundos.

Ele nasceu no Sri Lanka, mas seus pais migraram para o Reino Unido quando ainda era um bebê. Mal falava sua língua nativa e a maioria de seus amigos eram ingleses brancos. Caroline também era branca. Seus colegas na pizzaria, brasileiros, paquistaneses, iranianos, cidadãos da comunidade britânica, todo o tipo de europeu fazendo um bico em Londres, além de ingleses aborrecidos, daqueles que topam fazer o trabalho que só imigrantes encaram.

Ricthie era o único cingalês.

Mal falava com os pais, que se mudaram para o litoral. Não tinha particularmente uma religião e acompanhava de vez em quando as partidas do Chelsea sem muito entusiasmo. Não falava em política, mas também não gostava nem de Tatcher, nem de Reagan. Ritchie gostava, mesmo, era de David Bowie.

Desde os tempos em que trabalhava na cozinha do Pizza Hut da Queensway, Ritchie o acompanhava com entusiasmo. Os outros? Wankers, punheteiros, dizia Ritchie mostrando todos os dentes da sua dentadura perfeita.

Tinha sempre uma fita com suas canções preferidas de Bowie no seu walkman e guardava uma cópia no seu armário da sala de funcionários da pizzaria.

Cassetes arrebentam, dizia.

O grande sonho de Ritchie era ver Bowie ao vivo. Uma vez, quase conseguiu. Comprou ingressos para o show de lançamento de Let’s Dance em Paris, mas naquela semana uma tempestade tornou impossível cruzar o canal da mancha. Bowie ficou na França. Ritchie e sua frustração, em Londres.

De 1983 para frente, Ritchie tentou várias vezes, mas a sorte não o ajudou. Bowie lançou Tonight no ano seguinte com ingressos esgotados. Veio a turnê do álbum de 1987 e Ritchie continuou tentando sem sucesso.

Até aquele dia que esqueceu seu armário aberto no trabalho e suas coisas desapareceram.

Não era o primeiro roubo na pizzaria e nas outras vezes encontraram parte do que foi furtado na sala da caldeira. Ritchie correu para lá. Sua carteira, vazia, estava dentro da caldeira. A fita de Bowie, também. Molhada e inútil.

Sean, o irlandês ruivo, baixinho e preguiçoso, era o principal suspeito de todos, mas nada havia sido provado. Ritchie não se importou com isso. Pegou o irlandês pelo colarinho e o arrastou para a saída de serviço da pizzaria, que ficava em frente ao pub da rua Moscow.

Eu sei que foi você.

Eu…

Se precisava de dinheiro era só pedir, seu merda. Não precisava arrebentar com as minhas coisas. Detonar a minha fita do Bowie.

Foda-se. Foda-se o punheteiro do Bowie.

O quê?

Qualé, Ritchie? O que você tá pensando? Você é indiano, namora uma inglesa branca, se derrete por um músico branco, quem você pensa que é? Você acha que isso torna você inglês? Você acha que esse empreguinho de merda nessa pizzaria de merda faz você menos escuro do que é? Foda-se o Bowie. Fo-da-se você.

Ao som dos gritos de incentivo dos bêbados do pub, Ritchie bateu com raiva. Chutou a cara de Sean até cansar. Nos seus vinte e poucos anos de vida nunca tinha sido tão humilhado. Nunca ninguém havia conseguido tirar o chão debaixo dos seus pés. Neste momento, os dois mundos de Ritchie colidiam. Assim como nunca fora cingalês, neste momento também não era mais inglês. Sean conseguiu roubá-lo duas vezes. Na segunda com requintes de crueldade.

No dia seguinte foi despedido. Caroline, que presenciara o massacre do irlandês, não queria mais vê-lo. Sean, por sua vez, processou Ritchie por agressão.

As poucas economias que tinha foram gastas no processo. Sem dinheiro, teve que se mudar de Bayswater para o subúrbio. Sem emprego, sem companheira e sem identidade, sucumbiu.

Marcado pela briga, não conseguiu mais trabalho, apesar de ser um promissor superintendente de cozinha na pizzaria. Aceitou empregos cada vez mais sórdidos, distanciou-se dos amigos, seus pais o perderam de vista. Depois de ser despejado, Ritchie foi morar nas ruas. E tornou-se invisível para o mundo que, durante 20 anos, deu a ele a ilusão de pertencer.

Depois de quase 3 décadas sem endereço fixo, Ritchie abandonou tudo que o conectava a sua vida pregressa. Menos Bowie.

Das portas das lojas de música do lado sul do Tâmisa, Ritchie acompanhava a carreira de Bowie. Ouvia suas músicas. Primeiro com fitas rejeitadas que usava no seu cada vez mais velho walkman. Com o passar dos anos, adotou um tocador de MP3 achado no lixo, que era abastecido com certo atraso por conhecidos dos restaurantes onde pedia comida, música e recarga de bateria. Ouvia agora Love is lost quase que em looping, impressionado com a coincidência dos 22 anos, idade em que sua vida havia desmoronado:

É a hora mais escura, você tem 22 anos
A voz da juventude, a hora do pavor
A hora mais escura e sua voz é nova
O amor está perdido, perdido é o amor

Um dia, dormindo embaixo de um viaduto em Beckenham, Ritchie foi acordado por uma voz conhecida. Irritado, mas curioso, abriu os olhos e viu um senhor dos seus sessenta e tantos anos o encarando.

Ei!

Ahn?

Você está bem? Como é seu nome?

Richard. Ritchie.

Prazer, eu sou David.

Richie abriu um sorriso que não aparecia há décadas. mostrando os mesmos dentes perfeitos da juventude:

David. Bowie.

Ei, você me conhece?

Sim, muito. Você mora em Nova Iorque, o que faz aqui?

Trouxe minha esposa e minha filha para Londres para conhecerem a cidade. Uma espécie de viagem afetiva. Eu morei aqui em Beckenham por um tempo. O que você está ouvindo?

Love is Lost

Bom gosto o seu. Você precisa de alguma coisa?

Não sei se você pode…

Diga…

Ritchie pediu para ele cantar. Bowie soltou uma sonora gargalhada, virou as costas e foi embora. Em minutos estava de volta com um violão. Sentou no cordão da calçada e perguntou:

Qual foi o ano mais feliz para você?

1980.

E Bowie cantou Ashes to Ashes para a menor plateia de sua vida.

Um ano e meio depois, Ritchie descobriu que Bowie havia morrido. Ali mesmo, em frente à banca de jornais, ajoelhou-se. E murmurou a única oração que sabia, retirada da canção de alguém que, um dia, lhe ofereceu algo que nenhum dinheiro pode comprar:

Rezo para que o amanhã me deixe mais animado. Por que não podemos dar ao amor mais uma chance? Por que não podemos dar amor? Pois o amor é uma palavra tão fora de moda. E o amor te desafia a se importar com as pessoas no limite da noite. E o amor te desafia a mudar nosso modo de nos preocupar com nós mesmos. Esta é nossa última dança. Isto somos nós mesmos. Sob pressão. Amém.

Saul Duque