Samba do ventilador
Nada dura para sempre. E você tem que agradecer o que está na sua mão.
Leo sempre levou muito a sério essa maneira de encarar a vida. Estragou, não tem problema: joga fora. O amor de Estela, carnaval uma vez por ano, o mínimo de conforto material e estamos ok, pensava.
Até que um dia estragou o ventilador.
Seria só mais um objeto para descartar e substituir, mas não naquela semana de calor senegalesco. Seria apenas um acidente de percurso naqueles dias de carnaval, mas Estela, a paciência em pessoa, não era ela mesma naquele mormaço úmido, extremamente irritada com algo que nem Leo, nem ela, nem os mosquitos que os atacavam inclementes sabiam definir. Seria só passar em um magazine qualquer, mas ele gastou seus últimos 700 reais em duas fantasias de chão da Portela.
Seria só parcelar no cartão, mas nem os vendedores de cartão da C&A estava dando crédito para Leo. E, se dessem, não vendiam ventilador na C&A.
Desceu o morro suando em bicas, tentando recordar da última vez que Estela o chamara de Leocádio. Não lembrava, mas sabia que ela só o chamava assim, acentuando cada sílaba do nome que herdara da avó, quando a brabeza impedia qualquer forma de negociação ou adiamento da tarefa. Encontrar um ventilador. Subir o morro. Ligar o ventilador. Ser feliz novamente.
Pensou em parar na venda do Zé, mas lembrou que o pagamento do caderninho estava duas semanas atrasado. Jogar no bicho não dava tempo e o Janilson não aceitava fiado. A única opção possível era a mais dolorosa: vender uma das fantasias.
Perdão Monarco, Noca e Paulinho, mas Estela foi um rio que passou em minha vida. E meu coração se deixou levar. Foi direto até a casa do Ota, que comeu mosca e não comprou fantasia, e ofereceu a sua para ele.
Não, obrigado.
Mas você queria…
Agora não quero mais.
Pô, Ota, tô precisando.
Pago 200.
200?!? cara, eu paguei 350.
200 e não se fala mais no assunto.
Leo olhou por cima do ombro de Ota e viu, em cima da geladeira, um ventilador. Minúsculo. Faet. Daqueles de repartição pública. Provavelmente vendido na inauguração das casas Bahia, em 1957. Rabicho estragado, metal enferrujado, mas era um ventilador.
200 e aquele ventilador ali.
Fechado.
Leo subiu o morro zunindo, ventilador embaixo do braço. Entrou em casa, ligou os fios do rabicho sem plug direto na tomada. O ruído de metal arranhando trouxe Estela até a sala.
Taí o ventilador.
Sem dizer mais nada foi até o quarto, pegou a fantasia de cima do armário e desceu o morro para receber os 200 reais. Quando voltou para casa Estela já havia saído para a concentração do desfile. Sentou exausto em frente ao ventilador recebendo a brisa insuficiente das pás enferrujadas. Dormiu ouvindo o tilintar metálico do motor asmático.
Leo nunca mais viu Estela. Tempos depois ficou sabendo que estava morando com um técnico em ar condicionado: Ota, que ela conhecera desfilando entre os guerreiros do Exército de Terracota, na mesma ala da Portela.