creative director, copywriter
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Contículos

O horário em que a rainha da Inglaterra tomava seu chá era quando eu me se sentia como um rei.

Às cinco da tarde João batia seu ponto no condomínio e rumava para o parque próximo, usado como atalho para chegar até o fim da linha do ônibus. Ele, que nasceu em sítio e criou-se de pés descalços, fica com aquele ar de cachorro preso na rotina da portaria lidando com portões, chaves e cancelas. Mas as cinco badaladas do relógio eram o sinal para a sua transformação. Seus olhos muito claros e pequenos ficavam ainda menores quando enfrentavam a luz forte da tarde, mas ele não se importava. Mal chegava ao canteiro grande junto ao lago e já tirava os sapatos, sentindo-se em casa ao primeiro contato com a grama. Sentava-se no banco de pés enferrujados e esperava Ingrid, a viúva do 608, passar com seu cachorro.

- Boa tarde, seu João.

- Boa tarde, dona Ingrid.

Gosto de você. Quantas vezes em pensamento ele tinha dito isso para Ingrid? O brilho dos olhos claros do porteiro contrastava com o cinza opaco do olhar da viúva, que perdera tragicamente o marido e desde então só saía para levar o cachorro ao parque. Mas seus olhos raramente se encontravam. Os dela estavam sempre voltados para baixo, encarando o chão. Talvez um dia eles cruzassem, desejava João. E talvez o brilho que sobrava nos seus pudesse iluminar um pouco as janelas da alma daquela que ele tanto admirava.

Seu trabalho era abrir portas todos os dias. Se ao menos uma vez ele abrisse janelas, seria um homem feliz.

Saul DuqueComment