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Contículos

Legado

A primeira briga de Guilherme e Celso foi nos 11 anos de Raquel.

Rolando entre brigadeiros e copos plásticos cheios de guaraná frisante, só pararam quando os adultos resolveram intervir. Nenhum dos dois namorava a aniversariante, mas ambos eram pretendentes. E ali e por isso começou uma inimizade que de tempos em tempos era celebrada a socos e pontapés.

Foram tantas brigas que nenhum sabia dizer exatamente quantas. Sentado no banco da delegacia, separado de Bernardo por um guarda corpulento, Pedro tentava lembrar.

Na decisão do campeonato de futebol da escola.

Na carnaval do clube da praia.

Na assembleia do diretório acadêmico da engenharia.

E aqui sua memória acabava.

Já sessentões, encontraram-se no parque, um correndo, o outro de bicicleta. Pararam ao mesmo tempo no bebedouro, reconheceram-se e, após um momento de hesitação, trocaram socos sem trocar uma palavra.

O delegado era o irmão caçula de Raquel. Mundo pequeno.

- Que bonito, dois marmanjos trocando sopapos no parque. Posso saber o porquê dessa manifestação de carinho em praça pública?

Os dois se olharam. Não se encontravam há anos. A primeira briga foi para ficar ao lado de Raquel no “parabéns”. Depois disso, foi sempre automático. Mesmo depois de anos, ao avistarem um ao outro, a agressividade foi como um arco reflexo, a mão que batia tinha o mesmo impulso da mão que se afastava rapidamente da chapa quente do fogão antes mesmo da informação chegar ao cérebro.

Subitamente, Pedro levantou-se e abraçou Bernardo antes que o guarda o impedisse. Abraçou forte, intenso, agradecido. A rivalidade irracional era uma das poucas sensações da mocidade que restava aos dois. Reviver aquilo era uma emoção indescritível.

Ainda entrelaçados, saíram da delegacia. Não era todo dia que a juventude reapresentava-se tão intensamente.

Saul DuqueComment