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Contículos

O vento que sopra

Penélope tomou mais um gole de café e suspirou fundo antes de afirmar categoricamente que o ex-marido era um fraco. Um rato traidor cuja fraqueza moral a repugnava.

Irene ouvia Penélope, imóvel e muda, seus olhos não piscavam. Seu café esfriava sob o frio polar do ar condicionado, preto retinto contrastando com a xícara branca. Sua mente dividia-se entre ouvir as palavras duras e rancorosas da cunhada ao mesmo tempo em que pensava na sua admiração pelo irmão.

Euler era seu herói de infância. O atleta vencedor, o orador confiante, o primeiro da família a entrar na faculdade. E lá o encontro do estudante talentoso com Iara, bela e inteligente, rebelde demais para permanecer no interior, faminta demais para retribuir o amor avassalador que tomou posse de Euler na primeira vez que a viu.

Euler levou meses para se recuperar daquele furacão que foi Iara. E anos para encarar seriamente um novo relacionamento amoroso. Canalizou todas as energias nos estudos e só no último ano de graduação deu espaço para Penélope entrar em sua vida. 

Penélope, a colega da medicina que esperou pacientemente pela recuperação emocional de Euler. Mas que equivocadamente achou que seu coração estava curado de Iara.

A chuva insistente daquele último dia do ano salpicava a janela do café, transformando o reflexo das duas jovens mulheres em borrões coloridos. O trovão trouxe Irene de volta à mesa, o gole de café frio desceu desagradável como as palavras de Penélope.

Irene foi testemunha do reencontro. Iara voltou à cidade com a gana de viver saciada pela longa ausência. E encontrou Euler esfomeado de saudades. Depois de muito tempo, Irene viu novamente nos olhos dele um brilho esquecido no passado.

Tinha pena da situação da cunhada, mas ao mesmo tempo não condenava o irmão. Como um barco de velas rasgadas, Euler foi obrigado a ancorar em porto seguro. Porém, assim como o dia 31 de dezembro é apenas uma escada que nos permite escapar do ano velho, um veleiro é feito para o vento. E Iara era a tempestade perfeita.

Elucidário

Penélope: a que espera por dez anos a volta da marido da guerra de Troia.

Irene: filha de Zeus e de Têmis, deusa guardiã da ordem natural, do ciclo anual de crescimento, personificação da paz.

Euler: corruptela de Éolo, guardião dos ventos.

Iara: a senhora das águas, sereia que seduz pescadores e navegantes, metade mulher, metade peixe, cabelos longos enfeitados de flores vermelhas, assume a forma humana e sai em busca de vítimas.

Saul Duque