A dor
Ninguém sabe quando começou. Porque esse tipo de dor está entre os miseráveis desde que o mundo é mundo.
É a companheira dos desvalidos, dos descartados pelas cidades nos becos escuros e debaixo dos viadutos. Aqueles cuja dor é coletiva desde sempre, por miséria, por projeto de ódio, por extermínio.
Porém, miseráveis e desvalidos não são notados e são tantos que nem são tratados como indivíduos, são mais uma massa disforme que atravanca o progresso.
Portanto, não havia nada de novo a notar.
A dor só foi percebida quando os postos de saúde encheram-se de gente que não era miserável, mas era pobre. Não moravam na rua, nem estavam famintos, mas tinham sintomas de um longo jejum. A sensação de vazio no estômago, a falta de energia, a dor de cabeça e os tremores nas mãos da diminuição do açúcar no corpo. Eram sintomas leves, mas eram novos para aquelas pessoas que na sua maioria não passou fome na vida.
Depois dos pobres, chegou a vez dos remediados.
Os sintomas eram os mesmos, mas a intensidade era maior. O mal-estar causava febre e o buraco no estômago doía a ponto de não se conseguir fazer muita coisa além de descansar. Agora, além dos miseráveis, os pobres e os remediados também atravancavam o progresso e isso era inaceitável.
Especialistas, mestres e doutores foram chamados. A urgência da resposta e a emergência da solução foi enfatizada pelos líderes mundiais. E foi no meio dessa mobilização que a dor dos famintos alcançou outras escalas da pirâmide social com uma peculiaridade alarmante: a intensidade dos sintomas era cada vez mais forte conforme os mais ricos eram atingidos. Quanto mais dinheiro, mais dor. Não havia dieta revolucionária ou remédio inovador que desse um basta àquele sofrimento que crescia junto com as fortunas. E como as riquezas hoje em dia crescem e acumulam-se na velocidade de um tiktok, o pior ainda estava por vir.
Milionários colocaram-se em coma para esperar um remédio, uma vacina, um milagre, talvez. Mas o tempo passava e os leitos dos melhores hospitais enchiam-se de gente muito rica e muito mal de saúde. Ao mesmo tempo, empreendedores tornaram-se ricos ao montar novas, exclusivas e luxuosíssimas alas de leitos hospitalares para milionários em sono profundo. O que automaticamente os tornou os próximos clientes de seus próprios negócios.
Foi então que algo incrível aconteceu.
Como ninguém com dinheiro conseguia mais comer, alimentos começaram a sobrar. E foram distribuídos entre os mais famintos. E os famintos saciaram a fome. E conforme sumiram os famintos do mundo, os sintomas de todos começaram a diminuir. Dos famintos porque estes verdadeiramente tinham fome. Dos mais abastados, ninguém sabe o porquê. Ricos começaram a doar comida generosamente. E quanto mais doaram, mais os sintomas enfraqueceram.
Miseráveis voltaram a comer.
Pobres e remediados voltaram a trabalhar.
Ricos voltaram a respirar.
"Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”, citou o Talmud um bilionário ao anunciar uma enorme doação de alimentos.
(e não ficou claro se a vida que ele salvou era do próximo ou a dele mesmo)