creative director, copywriter

Crônicas

Caça às bruxas

Quando estudei para ser professor, aprendi um jogo muito interessante e muito fácil de aplicar com os alunos. Chama-se “Caça à Bruxa”.  

É bem simples: o professor anda pela sala e sussurra no ouvido de cada miúdo se ele é uma bruxa ou não. Depois, avisa a todos que devem formar grupos sem escolher uma bruxa. O maior grupo ganha o jogo. Os grupos que tiverem ao menos uma feiticeira, perdem.

O resultado é sempre o mesmo: instala-se um clima de desconfiança na sala e todos começam a interrogar-se. És uma bruxa? Estás mentindo? Aquela ali está com cara de bruxa! Aquele outro está muito nervoso!

Invariavelmente, os miúdos formam grandes grupos que desmembram-se rapidamente em vários pequenos na medida em que os sussurros e os olhares suspeitos tomam conta da sala.

E então, quando todos os grupos estão formados, chega a hora de descobrir o resultado através de uma pergunta:

“Vamos ver quem ganhou o jogo? Bruxas, levantem a mão.”

Nenhuma mão se levanta. A revolta é instantânea:

“O professor estragou o jogo!”

E esta é a deixa para que o mestre cumpra o seu papel de educador:

“Tens certeza? As bruxas da idade média eram de verdade? Ou toda a gente acreditou no que foi dito?” Vocês perceberam que só a suspeita da existência de uma bruxa conseguiu dividir a turma inteira?

A verdade é que caçar bruxas sempre foi e continua a ser um grande negócio. O teólogo inglês Méric Casaubon, no seu livro Of credulity and incredulity, argumentava em 1668 que “as bruxas devem existir porque, afinal de contas, todo mundo acredita nelas. Qualquer coisa em que um grande número de pessoas acredita deve ser verdade.”

Deparei-me com esta citação ao ler “Um Mundo Infestado de Demónios - A ciência como uma luz na escuridão”. Um livro onde o astrônomo Carl Sagan dedica-se a desmontar mitos antigos e modernos, das bruxas aos alienígenas. E assustadoramente prevê o que está a acontecer connosco nestes tempos de pseudociência, mentiras e negação da realidade.

No meu capítulo favorito, Sagan mostra como a inquisição virou uma fonte de renda para a Igreja, para o Estado e também para todos aqueles que ajudaram a perseguir cidadãos inocentes. Como usou-se o fervor religioso e o medo de criaturas sobrenaturais para, como no jogo inocente da Caça à Bruxa, controlar e desunir as pessoas através do medo.

Como, com a desculpa de livrar a sociedade de criaturas do mal, criou-se todo um processo de cobrança de despesas, gratificações e confiscos. Tirava-se até a última moedinha das supostas bruxas. Cobrava-se fraudulentamente dos acusados e de seus parentes os custos da investigação, o julgamento e execução, as diárias dos detetives particulares contratados para espionar, o vinho para os guardas, os banquetes para os juízes, as despesas de viagem do torturador mais experiente importado de outra cidade, os feixes de lenha e o alcatrão para queimá-las e a corda do carrasco. Os membros do tribunal ainda ganhavam uma gratificação para cada feiticeira queimada, e o que sobrava das propriedades da bruxa condenada, se ainda houvesse alguma coisa, era dividido entre a Igreja e o Estado.

Naturalmente, os envolvidos perceberam que o negócio era promissor. E deixaram as velhotas pobres e desdentadas para trás para investir nos membros das classes média e alta de ambos os sexos. Ali é que estava o dinheiro de verdade. Muito mais dinheiro foi feito com boatos, acusações, desconfiança e desunião.

E o motor de tudo isto foi o medo.

Medo do diferente. Medo do forasteiro. Medo da outra religião. Medo da outra família. Medo de quem não pensa igual a nós.

Hoje em dia, vivemos um jogo de Caça à Bruxa globalizado. Estamos a ver inimigos em todos os cantos. Enquanto isso, há gente a lucrar com nosso estado de angústia constante. Quanto mais medo, mais dinheiro ganham. Mais poder acumulam.

Por trás de estratégias modernas e tecnológicas de viralização e recompensas através da monetização, a nossa aldeia, agora global, acende as suas tochas e corre atrás de ameaças que só materializam-se nos nossos mais terríveis pesadelos. 

E os eleitores votam em salvadores da pátria, da tradição, da família e da propriedade. 

Há uma semelhança terrível com a inquisição. Não preciso citar os sinais, eles são perceptíveis o tempo todo nas redes sociais, nos meios de comunicação, nos debates políticos. 

Mas é isto que queremos? Um ciclo interminável de angústia constante que mina nosso sentido de comunidade e investe no nosso ódio e na nossa desconfiança?

Carl Sagan acreditava que, para encontrar uma gota de verdade ocasional em um grande oceano de confusão e embaraço, precisávamos de inteligência, vigilância, dedicação e coragem.

Unidos e dispostos, podemos mostrar para as pessoas que há alternativa. Que uma vida melhor é possível sem que precisemos identificar bodes expiatórios.

Está na hora de gritarmos “Não há bruxas na sala!”

E começar, de uma vez por todas, a dar a volta a isto.

Saul DuqueComment