Meu pai entrou de furo na Copa
Junho, 2014
Como disse Rimbaud, ninguém é sério aos 17 anos. E eu aprendi que a vida, além da experiência, nos entrega aos poucos a real noção de nossas origens e explica, em fragmentos, nossas personalidades. Tenho a sorte e o privilégio de ter um longo convívio com meus pais e a idade me deixou mais atento ao que eles falam. Quando a gente é jovem, os hormônios e a impaciência nos fazem perder oportunidades valiosas – e muitas vezes únicas – de ouvir grandes histórias e aprender com quem já passou por muita coisa na vida. Eu não era sério aos 17. Pois é. Nem o meu pai.
Ele tinha 16 anos em 1950. E junto com a sua turma foi até o Eucaliptos dar um jeito de assistir um jogo da Copa em Porto Alegre. Um dos amigos, o Meia-lua, já tinha o seu plano infalível: como estudantes pagavam meia entrada, colocou o uniforme de educação física do irmão menor para pagar menos. Na fila de entrada – calças no meio das canelas e camiseta esturricada – não dava a mínima para a estética. Ia ver a Copa ao vivo.
Como hoje, as obras da Copa exigiram dinheiro público e ficaram prontas em cima da hora. Por isso o muro do Eucaliptos ainda tinha andaimes instalados na rua Silveiro após a construção do novo pavilhão de alvenaria, substituto do antigo de madeira. Meu pai aproveitou a oportunidade, subiu em uma árvore, pulou para o andaime e escalou o muro, entrando para a história da família como o primeiro membro a furar uma Copa do Mundo.
Outro amigo não teve a mesma sorte. Marcou bobeira e foi descido da árvore a pranchadas de sabre por um brigadiano a cavalo.
Isto aconteceu em julho de 1950 no confronto da Suíça, que chegou cheia de moral após empatar com o Brasil no Pacaembu, e México, que jogou com a camiseta do Cruzeiro de Porto Alegre porque tinha a mesma cor de uniforme que o adversário. 64 anos depois, eu e meu pai, eu com o triplo da idade que ele tinha quando viu sua Copa ao vivo, ele com seus 80 anos bem vividos, vamos ver a Copa juntos na nossa cidade. Hoje, com o coração sorrindo, sou eu que levo ele, que me ensinou o caminho do Beira-Rio.
Como eu falei antes, a sorte e o privilégio são meus.