A princesa do quarto da vovó
Na casa daquele menino havia um quarto de hóspedes que carinhosamente era chamado de quarto da vovó. Isso porque uma de suas avós morava em outra cidade e por isso era quem mais o usava quando visitava seus netinhos.
No quarto da vovó havia uma pintura bem grande pendurada na parede. E nessa pintura, uma menina que parecia um princesa.
Como nem sempre a vovó estava na cidade, o pai do menino costumava usar o quarto para ler histórias antes do menino dormir. Sempre três: a primeira para acalmar, a segunda para botar areia nos olhinhos e a terceira nem era uma história, já era o primeiro sonho.
O que nem o menino, nem o seu pai sabiam era que aquela menina realmente era uma princesa. E que a princesa ouvia com muita atenção todas as histórias que eram contadas naquele quarto. Ela precisava encostar o ouvido no vidro que protegia a pintura, mas sempre acompanhava todas elas.
A hora das histórias era a melhor parte do dia da princesa, que o resto do tempo ficava ali parada na pintura, torcendo para que a noite chegasse, a cama ficasse cheia de livros e o menino escolhesse as histórias daquela noite. Às vezes, nos fins de semana, a família do menino viajava e então era aquele silêncio na casa. A princesa ficava triste, com saudades das histórias, mas um dia ela tinha ouvido o menino pedir para seu pai contar histórias da cabeça, histórias que não estavam nos livros. E como tinha uma memória de princesa, recontava para si mesma suas histórias preferidas, que ela amava tanto e que por isso eram as suas histórias da cabeça.
Até um dia em que a família tirou férias no final do ano e o que parecia mais um fim de semana sem livros transformou-se em vários dias. E depois, semanas.
A princesa não se aguentava de ansiedade e cada nova noite ela esperava pacientemente pela chegada do menino. Mas ninguém aparecia. O dia era só silêncio e a noite, tristeza.
A princesa resolveu fazer alguma coisa. Aquela vida atrás do vidro só era suportável com a companhia do menino. Mas o que uma princesa presa dentro de um quadro poderia fazer? Não muita coisa, mas ela não era aquele tipo de princesa que ficava com dor nas costas se deitasse sobre uma ervilha, nem daquelas que desmaiavam ao ver uma bruxa má. As princesas que ela admirava eram valentes, montavam cavalos, corriam atrás de seus destinos, não tinham medo de pouca coisa.
Por isso ela resolveu empurrar um pouquinho o vidro do quadro. E ele cedeu. Daí ela empurrou um pouquinho mais, agora com as duas mãos. Subiu seu vestido de princesa até os joelhos e também usou os pés. A moldura fez um barulho esquisito, o vidro guinchou contra a madeira e de repente, ploft! Foi para o chão fazendo o maior barulho.
Foi um grande susto, mas felizmente a cama da vovó estava ali embaixo do quadro para a princesa cair. Ela respirou o ar puro de fora do vidro, olhou ao redor e resolveu explorar a casa. Pé ante pé ela saiu do quarto, cruzou um corredor e chegou a uma sala repleta de brinquedos coloridos. Mas o que mais chamou sua atenção foi o que ela viu nas prateleiras:
Livros!
Dezenas, tão coloridos quanto os brinquedos, com personagens que ela conhecia de cor nas capas. A princesa deu um pulo de alegria e foi abrindo um livro atrás do outro, com o coração batendo forte de emoção. Lobo mau, Rapunzel, Emília, astronautas, pinguins, ursos rabugentos, gênios da lâmpada, todos aqueles que alegravam suas noites na voz do pai do menino estavam ali, em suas histórias, ao alcance de seus olhos.
A princesa tomou uma decisão.
Ela nunca mais voltaria para aquele quadro solitário. Ela preferia deixar de ser princesa a voltar para aquela vida atrás do vidro, vivendo aventuras apenas na sua imaginação. Ela queria morar em um livro, ser um personagem, sentir alegrias e tristezas verdadeiras.
Foi difícil para a princesa escolher seu novo lar. Afinal, muitas eram as suas histórias preferidas.
Finalmente a família voltou das férias para passar as festas de fim de ano em casa. Na primeira noite o pai do menino pegou um velho livro de contos natalinos para ler. E foi uma grande surpresa perceber que havia uma nova história nele. Um conto onde uma jovem princesa abria mão de seu reino para alcançar aquilo que ela descobriu ser a coisa mais preciosa do mundo: a felicidade.
E que tudo isso acontecia em uma noite de Natal.