creative director, copywriter
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Para os pequenos

O elefante da loja de cristais

O urso entrou abruptamente na loja de cristais.

O dono, um elefante que todos conheciam por Max, resmungou para si mesmo. O que aquele comedor de mel queria na sua delicada loja? Nem houve tempo para perguntar. O urso tropeçou no degrau criado pelo desnível do passeio e esparramou seus 250 quilos por sobre as prateleiras, espalhando cristais pelo chão duro de cerâmica, triturados em milhares de minúsculas pedrinhas multicoloridas. Uma cena que, filmada e reproduzida em câmera lenta, garantiria milhares de gostos nos stories da vida.

Nem o sapatinho da Cinderela, a escultura de cristal preferida de Max, salvou-se.

Ele retirou os óculos com a ajuda da tromba, talvez para tentar embaciar a cena plasticamente perfeita, mas emocionalmente trágica que havia testemunhado. O pelo pardo do urso brilhava com os pequenos fragmentos de cristal, enquanto os três ovos de cristal russo que Max comprara de uma cegonha contrabandista formavam um omelete de cacos sob seus pés. Suas pequenas orelhas de elefante asiático pareciam ainda menores, encolhidas pela angústia.

"Não era minha intenção", disse o urso em um tom de voz surpreendentemente educado para alguém da gangue dos pardos, famosa na região pelas desordens noturnas, a virar caixotes de lixo e invadir as típicas lojas de mel de alecrim para beber geleia real com aguardente.

"E qual era exatamente a sua intenção?"

"Comprar um presente de Natal para a minha filha. Disseram-me que ninguém tem animais de cristal mais perfeitos do que o senhor.”

Mais calmo, Max ficou intrigado com aquele urso que falava com a elegância de um galgo inglês. Mas foi ríspido ao cobrar pelo estrago.

"Deve-me uma quantia substancial, senhor…”

“Bernardo. Muito prazer”

Bernardo ficou da cor de um urso polar ao ouvir quanto custava o seu tropeção. Não possuía aquele dinheiro. Na verdade, nem tinha o suficiente para comprar um simples poodle de cristal nacional, como pôde constatar ao juntar algumas das etiquetas de preço espalhadas pelo chão.

"Olha, senhor elefante…"

“Max."

"Olha, senhor Max, eu gostava realmente de pagar pelo estrago, mas está muito acima das minhas possibilidades.”

Max sabia disso. Os pardos imigraram para a região em busca de oportunidades, mas os que não afogaram-se na travessia marítima acabaram em subempregos, a morar em bairros degradados na periferia. Na hierarquia social local, eram quase os últimos, acima apenas dos bichos-preguiça, que esforçavam-se em fazer jus ao nome que tinham. Com pouca educação, restava aos ursos o trabalho com pouco uso do cérebro. O que fazer? Chamar os cães polícia? Para quê? Outro urso preso? Seria apenas mais um a superlotar o zoológico correccional, sem qualquer chance de indemnização para sua loja. Max avaliou as opções e teve uma ideia.

“Dar-te-ei seis tarefas. Uma para cada dia até o Natal, a iniciar amanhã. Quando as cumprir, ficará livre da dívida.”

Bernardo respirou fundo. Sentiu o cheiro das caixas em couro no balcão de ofertas. Das folhas de papel de arroz para embrulhar as delicadas peças de cristal. O traço ácido do charuto, certamente enrolado à pata por crocodilos em Cuba, que o elefante guardava na segunda gaveta do balcão. Da colónia cítrica. Do ambientador de pinho da casa de banho. Do amendoim doce no escritório ao fundo da loja. Um urso pardo tem o olfato de sete cães.

"Está bem", disse Bernardo. "Começo amanhã.”

Max foi para casa a pensar em seis tarefas, com certeza manuais, para dar ao Bernardo. A primeira, é claro, seria limpar a loja. Mas estava cansado e não queria mais pensar nisso. No rádio do carro tocava Zara Vaughan, uma elefanta-da-floresta africana que ficou muito famosa quando ele ainda era filhote. Aumentou o volume e esqueceu do urso enquanto cantarolava a sua parte preferida da música. 

You like potâto and I like potáto

You like tomâto and I like tomáto

Potâto, potáto, tomâto, tomáto

Let's call the whole thing off…

Quando Max chegou à loja no dia seguinte, Bernardo já o esperava sentado no passeio. Entraram juntos, buscaram vassoura e pá do lixo na arrecadação. Max foi fazer café e Bernardo limpou cuidadosamente o chão.

Quando voltou com duas chávenas fumegantes numa bandeja de marfim - uma lembrança do seu avô - Max encontrou a loja quase limpa. Bernardo juntava os últimos cacos. Sobre o balcão, várias peças intactas que estavam escondidas entre os cacos de cristal. O elefante notou que as figuras dos animais estavam em ordem alfabética. Os veículos, ordenados pela quantidade de rodas. E entre tudo isso, o sapatinho da Cinderela, milagrosamente inteiro, apesar da sua queda de três andares de prateleira.

Max sorriu.

No segundo dia, a tarefa de Bernardo era cortar um pinheiro e decorá-lo para o Natal. Max passou o dia fora enquanto o urso trabalhava. No final da tarde, a surpresa. A árvore, montada com as bolas coloridas, emitia uma luz muito diferente dos cordões de luzes comprados nos bazares de quinquilharias dos pandas, perto da estação. Ao aproximar-se do pinheiro, Max notou que em cada galho havia fragmentos de cristal recolhidos do entulho de dois dias atrás. A cada altura, a cor dos cristais mudava e criava faixas de luz diferentes. No topo da árvore, uma estrela de cristal, belíssima, dominava o conjunto. Max reconheceu os três ovos de cristal quebrados, colados à perfeição em cinco pontas brilhantes. Uma peça tão delicada que, se estivesse por ali, a própria raposa-vermelha da Rússia que criou os ovos assinaria.

Max conhecia lobos em pele de cordeiro e gatos que vendiam-se como lebres. Mas era a primeira vez que deparava-se com um urso com a sensibilidade de um coala.

Na manhã do terceiro dia, Max decidiu testar Bernardo.

"Conta-me uma história emocionante em menos de dez palavras.”

O urso lembrou-se do Búfalo Hemingway e do seu conto mais curto do mundo. E as seis palavras do escritor foram a sua resposta para Max:

"Vende-se: sapatos de bebé, nunca usados."

Max emocionou-se.

"Vá para casa. Ganhaste o dia."

No quinto dia, véspera de Natal, Bernardo tinha de preparar -se para o jantar daquela noite. Max deu-lhe 10 moedas e desafiou-o a vestir-se apropriadamente, sem gastar mais do que recebera. E teria de regressar às sete da tarde para o elefante verificar o resultado.

Às sete em ponto, Max ouviu a campainha. Abriu a porta. Bernardo usava a mesma pele de urso pardo da manhã, mas estava escovado. O elefante franziu a tromba, contrariado.

Bernardo então retirou de um estojo um par de óculos com armação de tartaruga, iguais aos do elefante, e colocou-os na ponta do nariz.

"Não há nada mais elegante do que armações de tartaruga, concordas?”

Max abraçou Bernardo.

A ceia da véspera de Natal servida ao lado da árvore era para os dois, que passaram a noite como velhos amigos. Bernardo contou histórias da sua terra e falou da filha, que se chamava Zara em homenagem à cantora africana. Descobriram coisas em comum para além do mesmo gosto musical, coisas que aproximavam ursos, elefantes ou qualquer outra raça de animal com o mesmo ideal de vida, com as mesmas necessidades de sorrir, amar, ser feliz e fazer o bem àqueles que cruzassem seu caminho. Coisas mais importantes do que ter um focinho mais nobre ou um tom de pelo mais claro. Comeram, beberam e conversaram até sentirem-se saciados pela música, pelos aromas e pelas histórias. No final do jantar, Max levantou-se da mesa, foi até ao balcão e trouxe de lá um pequeno embrulho.

"A tua sexta tarefa é entregar esta encomenda amanhã. A morada está no envelope.”

Abraçou mais uma vez Bernardo.

"A tua dívida está paga. Com juros. Obrigado por tudo. Confio em ti para cumprir a última tarefa sem precisar prestar contas.”

O urso retribuiu o abraço, pegou o pacotinho e saiu. Tremeu com o ar gelado e arrepiou os pelos para proteger-se melhor. Resolveu verificar a morada, para ver se conhecia. Era a sua. Foi aí que notou a etiqueta colada no pacote.

de: Pai 

para: Zara

No almoço de Natal na casa de Bernardo, o delicado sapatinho de cristal da Cinderela ocupou um lugar especial em frente ao prato da filha.

Saul Duque