creative director, copywriter
1_Uq9eaGbwqUuGWOOBbILfpQ.jpg

Para os pequenos

O quarto porquinho

Era uma vez quatro porquinhos.

Sim, quatro. Os três daquela fábula do Lobo Mau e o seu irmão mais novo e menos conhecido, o Benjamin.

A história dos três porquinhos todos conhecem muito bem. Os dois mais jovens, distraídos, sonhadores e preguiçosos, preferiam dançar ao som da flauta e do violino ao invés de trabalhar. E o mais velho, responsável, precavido e muito sério, que sempre colocava em primeiro lugar as suas tarefas e responsabilidades. Quando chegou a altura dos quatro saírem da casa da mãe, cada um foi construir a própria morada. Mas Benjamin, que era inteligente como o irmão mais velho, porém sonhador como os outros dois, não queria mais ficar na floresta. Muito quente e húmida, cheia de melgas e com vizinhos para lá de fofoqueiros (não queremos fazer acusações aqui, mas não havia animal na floresta que não conhecesse aquela ruidosa família de caturras que habitava a coutada das castanheiras e estava o tempo todo a papagaiar sobre a vida alheia).

E um lobo que não era qualquer lobo, mas o terrível, famoso, abominável, o campeão do sopro de casa à distância chamado Lobo Mau, cujo prato preferido era leitão à Bairrada.

Benjamin queria viajar pelo mundo, conhecer novos lugares e animais. Ir para longe daquela floresta cujos limites ele conhecia tão bem. Dormir sossegado, sem medo dos predadores que espreitavam por detrás das árvores. Parar de ouvir as histórias de antepassados que acabaram por virar o ingrediente principal das refeições das feras.

Por isso, Benjamin tinha um plano.

Ele também iria construir sua casa, mas uma casa muito diferente das que existiam na floresta. Uma casa que o ajudasse a realizar seus desejos. Uma casa que não o prendesse a lugar nenhum. Uma casa que não era exatamente uma casa, mas que seria uma companheira em suas aventuras.

O plano de Benjamin era inventar uma casa-barco. Ele sabia que algo tão diferente também seria difícil de fazer. E precisava de ajuda. Mas sabia onde encontrá-la.

Primeiro, precisava de um especialista em casas flutuantes. E a grande autoridade da floresta neste assunto era a tartaruga, a grande navegadora que levava a própria casa nas costas quando ia nadar. Também necessitava de um engenheiro experiente, especialista em madeiras para construções à prova d’água. E quem melhor do que o mestre castor, que fazia seus diques no lago que ficava ao pé da floresta? Para completar a equipa, faltava um mestre na arte de usar o vento. E Benjamin não tinha dúvidas que a melhor escolha para essa nobre e fundamental posição era o esquilo voador, que sabia fazer do próprio corpo uma pipa.

Juntos, a tartaruga, o castor, o esquilo voador e o porquinho passaram muitas tardes a trabalhar e a projetar a casa mais incrível que aquela floresta já tinha visto. De acordo com os planos do Benjamin, ela precisava de uma vela enorme para usar o vento como motor. De um quarto confortável para ele descansar. E de uma cozinha bem equipada para preparar todas as comidas incríveis que iria conhecer ao viajar pelo mundo.

Depois de semanas de muito trabalho, a casa-barco ficou pronta. Ancorada no lago, ao lado do dique do mestre castor, estava linda. Pintada de verde-esperança e com sua enorme vela branca hasteada, parecia uma enorme flor copo-de-leite a brotar na margem, a balançar suavemente com as pequenas ondas do lago à espera do vento para partir.

Benjamin embarcou sua bagagem, encheu a despensa de mantimentos e preparou-se para levantar âncora logo após passar o Natal com sua família para despedir-se de todos. Porém, aquele mês de dezembro era de uma calmaria brutal, sem um ventinho sequer que pudesse ajudar sua casa-barco a velejar para longe da floresta, em direção à imensidão do oceano, à liberdade e às grandes aventuras.

Durante muito tempo Benjamin esperou pelo vento que não chegava.

Sentado no convés, entediado e triste, o porquinho lamentava a falta de sorte que forçava seus planos a ficarem encalhados naquele lago, distante do universo de coisas interessantes que havia lá fora. Já era quase a véspera de ano novo. Já era hora de partir.

Entretanto, se nada acontecia no lago, na floresta havia muita emoção. Muita correria. E muita aflição.

Benjamin mal sabia que seus irmãos estavam a correr imenso perigo, pois o Lobo Mau havia voltado para a floresta e estava com muita fome. Naquele exato momento, seus dois irmãos do meio escondiam-se na casa de tijolos do porquinho mais velho, enquanto o lobo tentava achar maneira de invadi-la e fazer, finalmente, o seu festival particular de leitão à Bairrada.

A sorte de toda a família de Benjamin é que o primogênito do clã dos porquinhos conhecia todos os truques do lobo. E quando o Lobo Mau, que era um chico-esperto que achava-se muito inteligente, tentou invadir a casa pela chaminé, acabou por cair dentro de um caldeirão de água fervente que o porquinho dono da casa de tijolos havia deixado de propósito a esquentar no fogo da lareira.

O final dessa grande barafunda todo mundo já sabe: o Lobo Mau saiu a voar pela chaminé feito uma bala de canhão, com seu rabo a arder de tão quente que estava a água do caldeirão.

Mas o que ninguém sabia até hoje é que a história não acabou por aqui.

Com o traseiro a pegar fogo, o lobo correu para o lago para aliviar a queimadura do seu rabo. Depois de esfriar o traseiro, notou um novo barco na água. E nele, o Benjamin. 

“Rá”, pensou o lobo. “Aqueles três porquinhos escaparam-me, mas este não vai fugir do meu espeto!”

Benjamin, ao ver o olhar faminto e o tamanho dos dentes do lobo, correu para dentro da casa-barco e trancou bem a porta.

“Abra essa porta que eu quero entrar!”, gritou o lobo mais uma vez (Apesar de achar-se muito fixe, ele era um animal chato e repetitivo, que havia abandonado a Escola Básica dos Lobinhos no meio do terceiro ano e por isso tinha um vocabulário bastante limitado).

“Não abro, não abro, não adianta gritar!’, respondeu o porquinho, que sabia bem o que dizer e fazer porque sempre prestou muita atenção dos treinamentos anti-lobo da escola.

“Então eu vou soprar, soprar e soprar!’

E soprou, soprou e soprou.

E a grande vela branca, eficiente como um esquilo voador, encheu-se de vento.

E o barco, sólido como um dique de castor, aguentou a força dos pulmões do Lobo Mau.

E o casco, deslizante como uma tartaruga a nadar, afastou-se rapidamente da margem.

E Benjamin, ágil como um marinheiro dos sete mares, levantou a âncora, soltou as amarras e a casa-barco deixou o lobo para trás. E para trás também ficou a floresta de onde ele tanto queria partir.

Ao olhar para a margem e ver tudo ficar cada vez mais pequenininho no horizonte, Benjamin lembrou-se com gratidão  de toda a bondade e auxílio que recebeu. “Quem tem amigos tem tudo”, sussurrou para si mesmo.

E pensou também na ajuda que o Lobo Mau acabou por oferecer sem querer. Às vezes, aquele último impulso que precisamos para encarar um grande desafio acaba por vir do lugar mais improvável. Para o porquinho, veio até de uma ameaça. Mas nem por isso devemos deixar de aproveitá-lo. E seguir o nosso caminho. 

Foi assim que Benjamin partiu em busca do seu destino no primeiro dia do novo ano. Feliz em busca de uma nova e emocionante história em sua vida.

Saul Duque