Como nossos pais
Aqui estamos nós, dez noites dormidas em nossas novas camas de nossa nova cidade em um novo país de um novo continente. E no meio do evento mais terrível e transformador desde a última guerra mundial. Quarentenados em casa sem poder usufruir da bela e primaveril Lisboa dos fins de março, quebrando a cabeça para não deixar duas crianças pequenas se entediarem, confinadas que estão na largada de uma nova vida que prometia já na chegada enormes novidades e atrações.
Mas isso não é uma reclamação. Estamos em um país do primeiro mundo, bem instalados, planejados e documentados, aguardando confortavelmente que as coisas melhorem - e vão melhorar - mas temendo pelos amigos e amores que deixamos para trás.
Naquele famoso discurso de formatura que fez em Stanford, Steve Jobs, falando sobre sua vida, disse que “você não pode conectar os pontos olhando para frente; você só pode conectá-los olhando para trás”. O futuro é sempre algo desconhecido e passível de mudanças, mas a sua vida sempre estará conectada na trajetória que fez você ser você mesmo. E isso habitou minha cabeça nos últimos dias ao trazer a lembrança de meu bisavô, Juan Pedro Duque, um mestre-escola espanhol que migrou das Ilhas Canárias para o Uruguai em busca de uma vida melhor. Seu filho, meu avô e padrinho Saúl Carlos, que nasceu no início do século passado em Canelones e seguiu os passos do pai, migrando para o Brasil em busca de melhores oportunidades. Meu pai, Carlos, que nasceu em Florianópolis e minha mãe, Zorca, de Bagé, que encontraram-se em Porto Alegre onde eu, Carlos Saul, nasci.
Todos esses pontos de conexão do meu passado ligam-se agora à quarta geração da minha família, que faz o caminho inverso e sai do novo mundo de volta para a Europa. Mas nossos espíritos, bastante influenciados pela quarentena, ainda estão no Brasil.
Ainda estão preocupados com nossos parentes, nossos companheiros de trabalho, nossos amigos, nossos pontos humanos de conexão que estão enfrentando a crise em lugar bem menos preparado para algo de tal magnitude, com lideranças duvidosas, com muita falta de recursos para que a maioria da população possa ao menos lavar as mãos com frequência, quanto mais isolar-se em casa até que tudo passe.
Os pontos de conexão, as testemunhas oculares de nossa passagem pelo planeta, essas pessoas que a gente chora e ri juntos, mesmo distantes, mesmo se olhando numa tela, são o nosso sal da terra, a riqueza de uma vida. Deixá-las para trás é difícil, dói e faz sofrer. Mas Steve Jobs tinha razão. Quando olho para a frente vejo que os novos pontos de conexão só existem porque todos que me acompanharam até aqui me prepararam para isso. Por isso essas palavras são uma homenagem a eles e a meus ancestrais, que não reconheceram distâncias ou fronteiras para permitir que eu e minha família pudéssemos estar aqui, agora, nessa grande aventura que se chama vida.
"Somos una especie en viaje
No tenemos pertenencias sino equipaje
Vamos con el polen en el viento
Estamos vivos porque estamos en movimiento”