creative director, copywriter

Crônicas

Os sete pecados mortais

"Criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais, o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara."

'O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro’,

Carl Sagan, 1995

Vivemos tempos terríveis e não é apenas pela pandemia de coronavírus. A negação da realidade como estratégia para fugir de verdades desconfortáveis, turbinada pelo alcance das redes sociais, transformou o planeta em terra fértil - e plana - para o renascimento das mais estapafúrdias teorias furadas. E com elas vieram doenças quase erradicadas pelas vacinas, idiotas messiânicos e todo o tipo de caixeiros viajantes do charlatanismo. Esse é o primeiro pecado mortal:

Negar a realidade.

A relação causa-efeito. O testemunho factual. A estatística, a matemática e todas as ciências exatas que afirmam por meio de conceitos básicos e incontestáveis que o mundo é o que é e não o que idiotas com audiência acham que ele seja.

Negar a ciência

O mundo é redondo, as vacinas funcionam, os cientistas sabem mais do que eu e você sobre o que eles estudaram décadas para entender. Gurus de baixo calibre que acreditam que a Pepsi adoça seu refrigerante com fetos são um desserviço à civilização e à sociedade, e provocam desinformação, sofrimento, violência e morte. Por dinheiro, por poder ou simplesmente pelo prazer hedonista de estar certo contra as evidências recolhidas por um batalhão de profissionais capacitados que queimaram fosfato para chegar a uma posição privilegiada de conhecimento. Cito mais uma vez Carl Sagan, esse sim um guru da ciência que deveria ser mais consumido nesses tempos terríveis: "Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, nossa tendência é evitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados."

Negar a história

A cantilena distorcida dos negacionistas históricos polui nosso dia a dia a repetir opiniões pessoais como se fossem tratamento factual a eventos históricos. Um fato não deixa de existir só porque você não gostou dele ou porque sua preferência política não aprova. Não, a profissão de historiador não é de esquerda, eles saem da academia em todas as matizes ideológicas e você deve ouvir não aqueles com os quais se identifica, mas os que têm compromisso com a verdade. O regime soviético matou milhões, o nazismo matou milhões, os Estados Unidos e os Impérios Britânico, Otomano e Romano também mataram milhões. Ditaduras são de direita e de esquerda. Não há fascismo light. Os povos originários foram massacrados e os negros sofreram o diabo com a escravidão, aqui ou na América do Norte. E ainda sofrem, basta ver quem é pobre lá e aqui e qual é a cor de quem mais morre de tiro, de fome e de pandemia.

Negar a liberdade

Os arautos da liberdade estão por aí a denunciar o cerceamento da sua autodeterminação enquanto tratam de acabar com a independência dos outros. Liberdade é direito e dever, é ter a sua respeitada e respeitar a do próximo. A liberdade é o requisito fundamental de proteção do indivíduo. Mas há gente que faz questão de misturar liberdade com moral e assim acha que pode impor seus padrões morais a quem os têm diferente. A negação da nossa principal ferramenta de defesa contra o arbítrio, o desmando e o poder é um câncer que se espalha pela sociedade. E se ele chega à metástase, mata a democracia. Não há liberdade sem democracia e não há democracia sem liberdade. Negar uma é negar as duas. Não acredite em quem chora pela liberdade de, digamos, sair pela rua em tempos de quarentena, e ao mesmo tempo acha que alguém ser comunista, ou evangélico, ou sertanejo, ou gay, ou torcedor de outro time seja algo passível de punição. 

Negar a vida

Proteger o fruto de uma gravidez indesejável para depois abandoná-lo à própria sorte para que passe fome e sofra maus tratos em lares desestruturados é uma das grandes hipocrisias globais. Que bom seria se metade da energia dispensada para proteger não a vida, mas dogmas religiosos, fosse utilizada para acolher a multidão de crianças desassistidas planeta afora. A defesa seletiva à vida do próximo é mais uma das negações que empestam o mundo, pois não é uma celebração da vida em si, mas uma outra imposição de código moral. Não dê ouvidos a quem acha que o espaço de tempo entre ser concebido e a inevitável passagem desta para melhor possa ser interrompido segundo critérios que não dizem respeito a você. Não acredite na moralidade de quem acha que toda a vida é sagrada e a pena de morte uma solução. A vida é sua e não dos defecadores de regras.

Negar o erro

Vivemos um mundo de infalíveis. Ninguém comete equívocos. Logo, ninguém precisa revisar posições, revisitar pontos de vista, pedir desculpas pelo que fez de errado. A resultante disso é uma total perda de memória seletiva, onde fatos desabonadores são jogados para baixo do tapete para ajeitar uma narrativa de sucesso. Não é um esporte novo pois a União Soviética tratava de apagar de suas fotos históricas as personas non gratas do momento, mas o século XXI viu surgir um campeão da modalidade que atende pelo nome de Donald Trump. Bolsonaro, Boris Johnson, Kim Jong-Un, Maduro, Orbán, todos esses são amadores perto dele.  

Negar o óbvio

O físico teórico Brandon Carter afirma que nós "Vemos o universo da maneira como ele é porque, se fosse diferente, não estaríamos aqui para vê-lo”. O seu "princípio antrópico" estabelece que qualquer teoria válida sobre o universo tem que ser consistente com a existência do ser humano. No judaísmo, uma das questões mais profundas não é se D*us existe, mas se nós existimos realmente. Nessas duas frases, razão e emoção se aproximam poeticamente em busca de uma explicação para a existência humana. A espiritualidade e a ciência não são forças antagônicas, mas complementares. No centro de tudo é a curiosidade do homem que prevalece em busca de sentido. E o entendimento não está na substituição do fato pela versão. Do consenso científico por ideias controversas. Da história pela ficção. Da verdadeira compaixão pelo dogmatismo. Do amor à vida pelo moralismo. Da correção pelo orgulho fútil. Ou dos cientistas, historiadores, jornalistas, médicos, professores e pesquisadores por vigaristas, curandeiros e falsos profetas. A opinião não é argumento válido para explicar o porquê de estarmos aqui.

Nossa existência nesse planeta, ainda que curta, já nos fez deixar para trás um conjunto considerável de ideias estapafúrdias que nada de bom trouxeram para nós e muito menos podem trazer para as futuras gerações. Infelizmente esses conceitos teimam em voltar. Travestidos com roupas revolucionárias, no fundo são apenas a refutação rasteira da ciência e da racionalidade. Negar o mal contido nesse processo é negar o óbvio. É deixar que a ignorância, feito um vírus, circule entre nós, contaminando o que ainda resta de civilizado e inteligente na saudável diversidade de costumes, crenças e ideias que fazem a nossa vida ser mais interessante.

Saul DuqueComment