creative director, copywriter

Crônicas

O papel do papel higiênico

Sou do tempo em que o papel higiênico era cinza. Ou rosa, para dias de festa.

As gerações do papel higiênico de alta performance tátil e olfativa não tiveram sua personalidade forjada na aspereza da vida. Sim, o papel higiênico da minha geração honrava a tradição dos pioneiros. Desbravadores que usaram as próprias mãos em uma pausa para um número dois à beira do rio, ou que na falta de um curso natural de água foram criativos com lascas de madeira, sabugos e todo o tipo de vegetais. Sabe-se que Dom Pedro não foi para as margens plácidas do Ipiranga para declarar a independência do Brasil, mas porque a natureza o obrigou a uma parada estratégica. Coisa dos trópicos. Bem-aventurados eram os andinos e os alpinos, que tinham a neve.  

O papel higiênico fez um longo caminho desde sua invenção pelos chineses, há mais de mil e oitocentos anos, até virar item essencial da cesta básica do homem moderno. E a pandemia o trouxe de volta para o centro das atenções. Na corrida aos supermercados no início da crise, o primeiro a desaparecer das prateleiras foram os rolinhos de papel branco. Da Espanha a Cingapura, da Austrália aos Estados Unidos, clientes lotaram seus carrinhos com papel higiênico. A única explicação plausível para isso é que todo mundo estava borrado de medo, pois dor de barriga nunca foi sintoma do vírus.

Por falar em chineses, tem uma história sensacional que o Henfil conta em “Henfil Na China (Antes Da Coca-Cola)”, livro de 1977 onde ele narra a viagem que fez pela país no início da abertura para o Ocidente. 

Diz o Henfil que a Filarmônica de Londres foi fazer uma turnê pela China e levou um carregamento enorme de papel higiênico, pois vai saber o que esses comunistas usam por lá. Quando desembarcaram em Pequim, os chineses estranharam aquele enorme volume e ficaram ofendidos quando souberam que era papel higiênico. Os ingleses foram para o hotel e descobriram que a China tinha papel macio, hotel 5 estrelas, carro de luxo, essas coisas capitalistas que a gente gosta de usar. Quando saíram do primeiro hotel deixaram o papel higiênico para trás. Mas quando chegaram no segundo, lá estava o lote inteiro, junto com os instrumentos musicais.

Para encurtar a história: os chineses fizeram o papel higiênico excursionar junto com a orquestra e, quando os músicos voltaram ao aeroporto para retornar a Inglaterra, tiveram que levar todo ele de volta.

Em 1991, viajando pela ex-Alemanha Oriental, ouvi outra história incrível sobre papel. Assim que o governo comunista entrou em colapso, os alemães ocidentais assumiram o abastecimento das cidades orientais. De repente, ao chegarem nos mercados, os habitantes encontraram as gôndolas cheias, algo raro na sua rotina, e o primeiro produto a sumir da prateleira foi… sim, ele mesmo. Todo mundo resolveu estocar papel pois vai saber o que vai acontecer amanhã.

Bem, o amanhã chegou e os alemães orientais foram outra vez às compras. E ficaram pasmos porque as gôndolas estavam outra vez lotadas de produtos. E novamente compraram todo o estoque de papel higiênico.

Isso aconteceu por dias seguidos até as pessoas entenderem que não ia faltar papel, ou carne, ou farinha, ou o que eles quisessem comprar. Mas aí eles já tinham estoque para semanas. Meses.

A senhora que me hospedou em Chemnitz disse que um ano depois ainda tinha gente com papel higiênico enfiado em cada armário da casa. E me mostrou, rindo-se, o seu estoque pessoal.

Meu amigo Ricardo Braga, que mora em Portugal e trabalha para empresas polonesas, também me contou uma história bacana. Ele atende um supermercado que tem aumento de vendas de papel higiênico antes da Páscoa, Finados e outras datas festivas da Polônia. Por que será, pensei eu? Efeitos da comilança? Excesso de chocolate? 

Não. Os poloneses são muito hospitaleiros e oferecer um papel higiênico top quando hospedam parentes e amigos nessas datas é importante para eles.

Ponto para o papel higiênico.

O papel higiênico não faz distinção de raça, cor, credo ou ideologia. Passa despercebido a maior parte do tempo, mas basta ser ruim ou faltar que o desprazer e o pânico se instala entre os seres humanos. É polivalente - eu uso sempre para limpar meus óculos e Iberê Camargo, grande pintor e gravurista brasileiro, usava para limpar as chapas depois de fazer suas gravuras. Conta Eduardo Haesbaert, que também é um grande artista e foi assistente do Iberê, que uma vez um rolo de papel escapou da mão do mestre e foi a desenrolar-se pelo atelier, até quase acabar, enquanto o pintor gritava para ele:

"Volta aqui, desgraçado, que eu ía te dar um final melhor do que o teu destino!”

Papéis nos quais existem citações ou comentários dos Cinco Clássicos, ou que contenham nomes de sábios, não ouso utilizar no vaso sanitário.
— Yan Zhitui, acadêmico e funcionário público chinês, ano de 589
Saul DuqueComment