creative director, copywriter

Crônicas

Inventário dos teus seis anos

Ontem meu filho se despediu dos seus cinco anos. Hoje faz seis anos que sou uma pessoa melhor. A paternidade é uma escola onde as disciplinas surgem de supetão e exigem máxima dedicação. Sempre tem tema de casa e prova surpresa.

Ter filhos é preocupar-se mais com a firmeza das pernas e a força dos braços do que com as rugas do rosto. Saber encurtar um cadarço. Inventar uma história. Esquecer que desafina. Enxugar lágrimas alheias e próprias. Também ser mãe quando necessário. Mas nunca com a mesma eficiência. Fingir ser o mais lento. E o mais sábio. Tomar frangos escandalosos. Aprender a ler dormindo. Ter um estoque de pilhas interminável e chaves Philips sempre a postos.

Ontem lembrei que uma febre besta quase nos roubou a alegria. E que o amor é algo que se festeja a cada minuto. Pois frágil e delicado. E que isso deve ser dito em voz alta. E que dizer eu te amo me foi ensinado por quem colocou esse garoto no mundo comigo. E que verbalizar o amor é uma forma de orar até para quem não acredita em orações.

Ontem à noite me dei conta de que nunca mais terei um menino de cinco anos em casa. Foi quando meu filho pediu carinho nas costas para dormir e disse: é a sua última chance de fazer isso antes de eu ter seis. E eu fui dormir pensando que este foi um dos mais lindos convites que eu já recebi na vida.

Saul DuqueComment