Na esquina
Outro dia fui visitar um amigo. Fiz o trajeto de sempre e, na hora de dobrar à direita na farmácia da esquina, havia uma nova drogaria em uma outra esquina.
A quadra em que ele mora já tem três. Se aumentar um pouco a área, dá para contar umas dez. Em Porto Alegre não se pode mais usar uma delas como ponto de referência. Melhor abrir o Google maps.
A cidade tem hoje mais de 700 farmácias, uma para cada grupo de 2 mil habitantes. É quatro vezes mais do que o padrão recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Vamos combinar que a mania que o brasileiro tem de se automedicar ajuda os números. E que o alto custo da medicina no Brasil auxilia bastante a incrementar esses números. O resultado disso é que o país hoje tem mais de 89 mil farmácias. O mesmo número de supermercados e o dobro de postos de gasolina. 29 vezes mais do que salas de cinema. 35 vezes mais do que livrarias, que são apenas 2.500 e não param de fechar. Em 2012, eram 3.500 e o número atual, ao contrário das farmácias, está bem abaixo das recomendações internacionais. A Unesco sugere uma para 100 mil habitantes.
A definição de quarteirão hoje em Porto Alegre é: conjunto de casas formando um quadrado cujas esquinas são ocupadas por farmácias. E com várias pet shops entre elas. Sim, pois o Brasil já conta com 30 mil pet shops. Temos a segunda maior população de cães, gatos e aves canoras e ornamentais do mundo. E somos o quarto país em população total de animais de estimação: 52 milhões de cães, 22 milhões de gatos, 18 milhões de peixes, 37 milhões de aves e mais 2 milhões de outros animais. É um Japão de bichos caseiros que possui uma loja para cada grupo de 4 mil habitantes do mundo animal doméstico. Se existisse uma ONU dos bichos, essa enorme densidade de pet shops seria aplaudido de pé nas patas traseiras pela unanimidade dos delegados.
Por que eu sei de tudo isso? Porque acompanho essa ocupação desenfreada do espaço comercial urbano há muitos anos, desde o tempo em que as farmácias Panitz e Velgos ainda não eram a PanVel e a única loja de animais da cidade se chamava Agro Veterinária Seguézio. E agora vejo outro fenômeno acontecendo. Cada vez há mais lojas de colchões pela cidade. E não consigo entender o porquê disso. Há algum uso alternativo para colchões que não conheço?
A única explicação que passa pela minha cabeça é que a situação é tão estranha, a crise é tão braba que o pessoal voltou a guardar dinheiro no colchão. Vai saber o que pode acontecer amanhã com as nossas economias.