A viagem dos sonhos
Desde os tempos mais remotos da raça humana, viajar tem sido uma das ferramentas mais eficazes de aprimoramento da civilização. Por necessidade, ambição ou curiosidade, há algo dentro de nós que gera o desejo de expandir nossas fronteiras.
Éramos nômades atrás de alimento e abrigo até a tecnologia nos permitir criar agrupamentos humanos. Fomos navegadores em busca de novas terras e riquezas. Forçamos comunidades inteiras a cruzar oceanos como mercadoria em porões lotados para servirem como burros de carga em terras estranhas. Misturamos nossos genes, fortalecemos nossa espécie, enriquecemos nosso conhecimento ao explorar horizontes desconhecidos. O deslocamento humano, pacífico ou não, tem provocado as grandes transformações do planeta. Para o bem e para o mal.
É paradoxal que em pleno século 21 viajar seja uma atividade de desejo, um grande negócio que gere bilhões ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, a razão para que fronteiras sejam fechadas, muros levantados, tiros disparados. Colocar os parcos pertences em uma mala e fugir com a família é hoje o único escape para quem corre risco de vida em lugares onde os aviões não trazem turistas ávidos por uma experiência única, mas bombas, soldados e, também, bilhões em lucros.
Viajar é o exercício do direito de ir e vir das pessoas. Mas não se trata de uma atividade apreciada por muitas democracias quando é a sua fronteira que está envolvida no ato.
Viagens dos sonhos são vendidas para nós todos os dias. Subir o Everest, conhecer Machu Picchu, jogar uma moeda na Fontana di Trevi, ver a aurora boreal na Islândia, visitar as ruínas radioativas de Chernobyl. Há opções para todos os gostos. Porém, já somos quase 8 bilhões de habitantes, a cortina de ferro caiu e jogou milhões de novos turistas nas rotas mais desejadas. A China enriqueceu e seus viajantes invadiram o mundo. Tem turista morrendo de frio em fila pra tirar selfie no pico do Everest. A Pont Neuf em Paris quase caiu por causa de 40 toneladas de cadeados deixados em suas grades. A trilha inca está restrita a um número limite de mochileiros para não desaparecer a pisoteadas. A zona de visitação permitida em Chernobyl já foi tão modificada que virou um cenário, com bonecas e porta-retratos reposicionados pelos turistas para aumentar a dramaticidade das fotos. Basicamente, uma Chernodisney.
Tudo está lotado. A grande experiência individual passou a ser um artigo de altíssimo luxo, assim como o silêncio, a solidão e as zonas livres de wi-fi. Em um mundo esmiuçado em quase todos os seus centímetros quadrados, a viagem da sua vida é, infelizmente, um sonho que se sonha junto com milhares de outros turistas.
Mas navegar é preciso.
A ânsia de partir e participar de uma grande aventura segue sendo algo legítimo, saudável, bonito e, na minha opinião, uma das atividades mais enriquecedoras que um ser humano pode almejar. O viajante é, antes de tudo, um privilegiado que deixa para trás sua terra, mas ao mesmo tempo a leva para onde vai. "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, disse Tolstói.
Se as trilhas estão cheias, é hora de ser criativo. Assim como o algoritmo do aplicativo de música sugere sempre as mesmas canções para você, os roteiros seguirão sendo os mesmos e lotados se não desobedecer o google maps.
Com certeza ainda há caminhos não percorridos. Seja a sua própria bússola.