Queimada
Queimada é uma prática primitiva, destinada principalmente a limpar o terreno para cultivar plantações ou abrir campo para o pasto. Usa-se o fogo de forma monitorada, mas é comum ele desgovernar-se e causar incêndios em florestas e matas. E, no seu descontrole voraz, atingir cidades e pessoas.
A queimada acaba com o ambiente. Torna o ar irrespirável. Os seres atingidos por ela fogem desesperadamente. Migram para outros lugares.
A matéria orgânica superficial morre. O que era um terreno fértil vira carvão.
Suas vítimas principais são os seres mais desprotegidos. A diversidade se acaba, instala-se uma cultura única. Ou grama para alimentar os animais.
Por onde o fogo passa ele destrói. Indiscriminadamente. Vão-se as sementes. Plantas jovens são dizimadas. Acaba com as raízes. Elimina toda a vida que não terá possibilidade de sobrevivência na área. E que precisará ser reintroduzida mais tarde, com grande esforço, em uma terra mais pobre.
A queimada é a materialização da expressão “jogar o bebê fora junto com a água da bacia”. Na sua forma mais radical, a bacia também vai fora.
Chernobil, por exemplo. O desastre nuclear que atingiu 8.4 milhões de habitantes da antiga União Soviética inutilizou para a vida humana uma área de mais de 4.200 metros quadrados. Mais ou menos três Cidades do México. Essa zona de exclusão de 30 km ao redor da usina de Chernobyl hoje é a Reserva Radioecológica do Estado da Polésia, uma das maiores reservas naturais da Europa. Lá, tudo é radioativo, inclusive os animais. Há dezenas de espécies que habitam a região, inclusive ursos que haviam sido eliminados pelos humanos há 100 anos.
Mas se o efeito da presença humana sobre a fauna e a flora foi eliminado, isso não aconteceu com a radiação. Ela segue afetando a vida selvagem, que não pôde subir em um ônibus e ir morar em outro lugar. Estudos mostram que ela ampliou a frequência e o grau de cataratas nos olhos, diminuiu o tamanho do cérebro, aumentou a incidência de tumores, afetou a fertilidade e promoveu o aparecimento de anomalias do desenvolvimento nas aves.
Nas zonas mais poluídas, a decomposição das folhas das árvores é 40% menor do que a registrada em florestas não contaminadas. E esse acúmulo de matéria vegetal morta favorece incêndios florestais, que podem espalhar a radiação para outras áreas através da sua fumaça. Praticamente uma queimada radioativa.
Pode ser um desastre tecnologicamente sofisticado como Chernobil. Ou arcaico como o fogo provocado na mata. As consequências são terríveis.
E no caso do fogo, não sobra nada.
Se uma queimada faz isso com a terra, imagina o que ela é capaz de provocar em um país.