Circulando
2012. Peguei um táxi em Porto Alegre que não era dirigido por um motorista, mas por um monumento: um senhor de 85 anos. ‘Sou de antes do fusca’, disse ele, que tinha mais de 60 anos de praça nas costas. Perguntei se havia mudado alguma coisa nesse meio século de profissão e tive uma grande aula de história sobre os modos e costumes da cidade.
Mas a lição de sabedoria que recebi foi ainda maior.
Perguntei sobre o trânsito cada vez mais trancado da capital. ‘Claro que piorou’, disse ele, ‘mas o problema não são os carros, são as pessoas. Eu não me estresso e sempre me coloco no lugar de quem errou. Até porque todo mundo erra, e se erra não o faz de propósito e contra mim. Ali na frente sou eu que vou esquecer de dar sinal, ou cortar alguém sem perceber. Se toda vez que isso acontecer eu xingar ou ser xingado, vou alimentar uma neurose coletiva que, ela sim, torna o trânsito pior.’
Como motorista, já fui extremamente agressivo, competitivo, grosseiro, irresponsável, mas os anos de carteira me fizeram mudar de comportamento. Porém, ainda tenho o cacoete – exercitado nas poucas vezes que dirijo – de ser meio que um paladino dos bons costumes no trânsito, me estressando com as barbeiragens dos outros e com a mania irritante que o motorista porto-alegrense tem de competir por cada centímetro de asfalto que a cidade tem. A representação mais patética disso é como nos comportamos quando alguém faz sinal para dobrar ou mudar de faixa: nossa reação arco-reflexa é de acelerar para não perder nenhum território, nenhum segundo, como se fôssemos pioneiros gaúchos do século XIX demarcando sua glebas no pampa virgem.
Semana passada. Chamei um Uber e chovia canivetes. O motorista subiu na calçada para eu entrar. 'Perdão', disse ele, ‘Com uma chuva dessas, subo na calçada para o passageiro não se molhar. Sei que não devia, mas se não tem ninguém passando, faço a gentileza.’
Inevitavelmente, começamos a falar sobre o trânsito. De como os motoristas andam estressados. ‘É fácil a gente se irritar com a barbeiragem dos outros. Mas eu procuro não ser agressivo. Vai saber o que está acontecendo no outro carro, uma emergência, sei lá.’
A conversa me recorda do velho taxista de 2012. Hoje teria 92 anos. Será que está vivo? Será que ainda dirige? Falo dele para o motorista do Uber, um jovem de 29 anos.
Conto também sobre uma reportagem que li sobre violência no trânsito. Nela o biólogo evolucionista Jack Katz fala sobre como a raça humana desenvolveu ao longo de milhares de anos o instinto de formar alianças. O que nos faz, desde o tempo das cavernas, avaliar rapidamente as intenções de cada um que se aproxima de nós. Seria amigo ou inimigo?
No trânsito, esse tipo de julgamento não deveria ser de grande importância. Provavelmente você nunca mais vai ver aquele motorista que cortou a sua frente. Porém, “O cérebro processa essas informações (a gentileza ou a fechada) como se fossem o começo de um relacionamento de longo prazo”, diz Katz. E o Neandertal que ainda existe dentro de nós reage agressivamente. E, pior, encara cada nova situação de conflito como se fosse a ameaça de um inimigo mortal que, a cada esquina, arregimenta mais um soldado contra você e sua tribo.
O motorista me ouve atentamente. E me conta que aos 22 anos se envolveu em uma briga de trânsito. Feia.
Ele praticava artes marciais há um ano. Estava orgulhoso de participar de uma equipe de competição. Já tinha a técnica, mas ainda não havia absorvido a filosofia, por isso reagiu da pior maneira quando foi ofendido em uma troca de gentilezas nas ruas de Porto Alegre.
‘Uma pessoa não treinada não tem a menor chance contra um praticante de artes marciais. Eu sabia disso, mas mesmo assim fui violento. Fui processado. Minha vida virou de cabeça para baixo. Mas tive a sorte de ser o primeiro a contar para meu mestre o que aconteceu. Que não deixou me expulsarem da escola só porque ouviu de mim a verdade. Isso mudou minha vida. Hoje me convidam para contar minha história aos lutadores mais jovens. Sou um exemplo do que pode acontecer se você perder a cabeça. Pedi desculpas para o outro motorista na frente do juiz. Pedi desculpas para a equipe. Paguei indenização. E hoje sou outra pessoa.’
Desço do Uber fazendo as contas e percebo que a corrida com o velhinho do táxi e a briga do motorista do Uber aconteceram no mesmo ano. Alertado pela sincronicidade, me recordo das palavras do veterano quando desci do táxi cor de laranja, típico de Porto Alegre: ‘O trânsito não pertence a ninguém, mas é de todos’.
A coincidência reforça as palavras. Do seu jeito, o jovem do Uber falou a mesma coisa. E ambos estão cobertos de razão.
Talvez seja algo forte demais, contra-instintivo ao extremo a gente adotar um novo comportamento: o de estar sempre errado. E assim respeitarmos mais os outros, evitar de tentar uma vantagem ilusória invadindo o direito de circular de quem compartilha as ruas conosco. E entender que todos no trânsito estão em um sistema que se alimenta do que emanamos. Raiva ou tranquilidade, impulsividade ou bom senso, quem decide somos nós.
E a experiência já me ensinou: na vida, o maior sinal de que todo mundo está errado é a certeza que todos têm de estarem absolutamente certos.