creative director, copywriter

Crônicas

O especialista

O paciente chega à clínica com seus exames em um envelope. Aguarda ansiosamente na sala de espera, tentando entender o que está escrito no papel grudado por um clipe às folhas de acetato onde ele vê algo parecido com um coração. No caso, o seu coração.

Quando finalmente fica frente a frente com o cardiologista, o diagnóstico é contundente: tem que operar.

- Tem?

- Não há outra maneira. 

O médico começa a explicar como vai ser o procedimento, que precisa cortar no centro do peito, com afastamento do osso esterno.

- Não dá para o corte ser em outro lugar? E menor?

- Como?

- Cortar embaixo do braço, para não aparecer…

- Dá…

- Ótimo!

- Mas aí você morre.

- (…)

- Corta onde precisar, doutor.

A reunião foi marcada na obra mesmo, pois uma decisão precisava ser tomada. A estrutura do teto vai ficar comprometida se não for feita uma série de pilares para sustentá-la. Um deles dentro do futuro e espaçoso corner office do CEO.

- Faz o seguinte: puxa para perto da parede que eu disfarço o pilar com uma estante. Ninguém vai perceber.

- Eu até posso fazer isso, diz o engenheiro-chefe…

- Então está combinado!

- …mas daí o teto vai cair na sua cabeça e você vai morrer.

(…)

- Ok, o pilar vai onde tem que ir.

A campanha está em fase de ajustes finais e todos estão presentes na grande sala para a última revisão. Café fresco, sucos e água, quitutes em geral estão a postos para a chegada do CMO do cliente. O diretor de arte leiautou a mesa de petiscos, tamanha a importância da reunião. O encontro corre tranquilo, tudo é aprovado e o diretor se prepara para dar a palavra final.

- Gostei de tudo…

(sorrisos gerais)

- …tenho apenas pequenas considerações. Críticas construtivas.

(expectativa geral)

- Primeiro, a cor vermelha. Vamos ter que trocar.

- É a cor da marca.

- Sei, sei, mas vermelho é tão vermelho, vocês não acham?

- Vermelho é excitação, energia, paixão, juventude, coragem, atributos que a marca está precisando resgatar. E ela é vermelha, é o seu território cromático.

- Pois é, mas eu queria tentar outra coisa. Preto.

- Mas nosso público é popular, não vai se identificar com preto.

- Mas eu me identifico.

- Você falou em considerações, no plural. Tem mais alguma coisa?

- O logo. Tá pequeno.

- Está maior que o de costume. 

- Sim, mas como a campanha vai ser predominantemente preta, precisa aumentar. Bastante. Para não perdermos nosso território cromático.

- A gente pode pintar tudo de preto e aumentar o logo como você pediu…

- Perfeito! Pode tocar.

- …mas vamos prejudicar enormemente a compreensão do nosso público, drenar a energia da campanha e tirar o protagonismo de vários elementos da ação que são fundamentais para abrir espaço para o logo gigante. Ou seja, a campanha vai morrer.

(…)

- Estamos entendidos então. Pode fazer as mudanças que eu pedi. Parabéns!

Empresas precisam entender. Comunicação também é um caso de vida ou morte para suas marcas.

Saul Duque