creative director, copywriter

Crônicas

Setenta vinte dez

Há alguns anos vi uma palestra fantástica do Jonathan Mildenhall, na época VP de marketing global da Coca-Cola, sobre a estratégia de conteúdo da companhia para a próxima década. O projeto se chamava “Coca-Cola Content 2020" e a  meta era a migração de sua comunicação da “excelência criativa” para a “excelência em conteúdo”, que ele definiu como ideias tão contagiosas que não podem ser controladas e que, através das histórias contadas, provocam um grande compartilhamento de cultura popular.

Isso foi no já longínquo ano de 2011 e hoje esse movimento está totalmente consolidado em todas as grandes marcas globais. Mas a palestra me marcou muito e o próprio vídeo de divulgação (uma animação narrada pelo próprio Mildenhall) era um primor de excelência em conteúdo. Vi novamente para escrever esse texto e ele continua fresquinho e atual como há oito anos.

Mas como isso aqui não é um grande merchandising de refrigerante, vamos ao que mais me interessou, que foi o uso adaptado que a Coca-Cola fez de um modelo de aprendizagem e desenvolvimento no trabalho chamado 70/20/10. Esse método sugere que 70% da qualificação de um profissional vêm do aprendizado adquirido com a prática, dos desafios que ele cumpre em sua própria rotina de trabalho. 20% se consolidam através do relacionamento e na troca de conhecimentos com companheiros de trabalho. E apenas 10% dizem respeito ao aprendizado formal, incluindo aí os treinamentos, congressos, certificações, coaching e até livros que foram lidos.

A Coca-Cola usou estas proporções para classificar inteligentemente seu conteúdo em “Baixo Risco”, aquele feijão com arroz que põe dinheiro no caixa e deve ocupar 70% do investimento. "Novidade Já Testada”, 20% de conteúdo inovador voltado para audiências específicas, mas que atinge um grande número de pessoas. E conteúdo de “Alto Risco”, 10% de investimento em ideias rompedoras que no futuro possam migrar para os 20% de inovação e depois alimentar os 70% de baixo risco. Um círculo virtuoso de geração de conteúdo que garante continuidade e inovação nas ações.

Mas para mim a grande sacada desse modelo está na divisão de esforço proposta: os 70% de conteúdo de baixo risco devem ocupar apenas metade do tempo de trabalho da equipe, reservando depois 1/4 para os 20 de inovação e o outro 1/4 para a porralouquice:

70% de conteúdo de baixo risco - 50% do tempo da equipe

20% de conteúdo inovador - 25% do tempo

10%  de conteúdo de alto risco - 25% do tempo

Metade do tempo buscando alta criatividade e inovação. Eficiência para executar 70% do trabalho na outra metade. Ousado e brilhante como uma marca do tamanho da Coca-Cola deve ser.

Imagine que interessante aplicar essas proporções para o jeito que lidamos com a internet, principalmente com o tempo que dedicamos às redes sociais. Eu, e acredito que a maioria de quem está lendo esse texto também, luta todos os dias contra a dispersão e as tentações de abrir o email, dar uma olhadinha no twitter ou conferir a mensagem que chegou no celular. Esse é o rio caudaloso do nosso dia a dia digital. Toda vez que o celular me convida para olhar o boletim semanal de tempo de tela, me envergonho com as grossas fatias que assuntos de baixa importância comem do meu tempo.

Imagine garantir a maior parte do seu dia para a criação de coisas novas. Para explorar fontes de informação com profundidade. Para se dedicar ao que vai realmente mudar sua vida. Como diz Cal Newport, em seu livro “Deep Work”, "Os seres humanos, ao que parece, estão em seu auge quando mergulham profundamente em algo desafiador."

Imagine só. Você nem precisa ser VP de marketing global da Coca-Cola para fazer isso. Mas quem sabe esse tipo de resolução não aumenta as suas chances de chegar a uma posição tão bacana quanto essa?



Saul Duque