creative director, copywriter

Crônicas

Sua vontade é um músculo que cansa

Há um episódio de Os Simpsons em que a usina nuclear do senhor Burns é vendida para empresários alemães. Na entrevista que faz com Homer, o novo CEO pergunta se ele tem boas ideias para o futuro. Homer responde que gostaria que a máquina de doces parasse de recusar notas velhas, pois “muitos trabalhadores gostam de doces”, ao que o alemão responde:

“Nós entendemos, Homer. Afinal, viemos da terra do chocolate.”

Ao ouvir a palavra chocolate, Homer desliga da reunião e tem um delírio de 10 minutos sobre uma mítica Alemanha onde ele devora paredes, árvores e até um cachorro, pois tudo é feito de chocolate.  

Em outro episódio, um sósia de Homer é expulso do bar do Moe a pontapés, pois todos acham que o sujeito é o próprio Homer, que havia sido banido do lugar. O verdadeiro Simpson encontra seu "doppelgänger" na porta do bar e exclama: “Meu Deus, esse homem tem exatamente a minha cara!”

Nesse momento um poodle passa na calçada e Homer esquece do fato incrível de estar frente a frente com ele mesmo e segue o animal: “Esse cachorrinho tem uma cauda fofinha, vem aqui ,fofinho. Vem aqui, fofinho!”

Sou fascinado por Homer Simpson. Não por ele ser um sincericida preguiçoso, rude, incompetente, grosseiro e ignorante, mas porque em diversos momentos da série ele sucumbe à sua falta de concentração e dedica sua baixíssima atenção às mais diversas e mundanas distrações.

E não há pessoa na face da terra que já não tenha enfrentado esse monstro comedor de produtividade.

Em um estudo de 2012, os psicólogos Wilhelm Hofmann e Roy Baumeister descobriram que nós, seres humanos trabalhadores, somos bombardeados o dia inteiro pela vontade de fazer qualquer coisa, menos produzir concentradamente. Comer, dormir, fazer sexo, usar a internet, ouvir música, fazer uma pausa, todos são desejos comuns aos quais a maioria das pessoas não consegue resistir enquanto trabalha.

E, por mais que você encare com seriedade esse desafio do foco, dezenas de pesquisas feitas nas últimas décadas afirmam que a maioria dos esforços é inútil. E, pior, que possuímos uma quantidade finita de força de vontade que, portanto, se esgota à medida que a utilizamos. Uma pesquisa conjunta de 2016 da Fiocruz, do Instituto de Cardiologia Aloysio de Castro e da Universidade de Sydney, na Austrália, acompanhou 5 mil alunos matriculados em academia e constatou que mais de 64% abandonaram após três meses. E que apenas 3,7% seguiram firmes na meta de ficar em forma.

Como diz o brilhante título desse texto - que não é meu, mas de Cal Newport, "sua vontade é um músculo que cansa”.

Tenho a grande qualidade de ligar meu radar 360º e buscar inspiração em tudo o que me cerca, mas foco sempre foi um desafio para mim. Por isso, sempre procuro aprimorar minhas estratégias de concentração. Uma das mais bem sucedidas sempre foi a formação de grupos de trabalho. Como diretor de criação, sempre gostei de compor forças-tarefa para alavancar ideias e confrontá-las com opiniões diferentes. “Ah, brainstorming”, você vai dizer. Mas não é exatamente isso.

Um grupo de trabalho com esse tipo de objetivo precisa ser eclético, com profissionais de talentos diferentes para gerar atrito positivo e confronto de pontos de vista. Tem um artigo muito interessante do David Brooks no NY Times, "A arte do foco”, que diz o seguinte:

"Veja como as crianças aprendem em grupos. Elas fazem descobertas sozinhas, mas trazem seus tesouros para o grupo. Em seguida o grupo se reune e os explora. Na conversa, conflito, confusão e incerteza podem ser metabolizados e digeridos através de outra pessoa. Se o grupo definir um problema específico para si mesmo e, em seguida, definir um prazo apertado para chegar a respostas, a digressão livre da conversa fornecerá a oportunidade das pessoas serem surpreendidas por suas próprias mentes."

Tenho dois filhos pequenos em casa. Quando se juntam com mais crianças, transformam a casa em um caos. Mas há cosmos dentro da balbúrdia, etapas que são cumpridas com foco para que a brincadeira chegue a algum lugar: definição do jogo (objetivo), escolha de brinquedos (ferramentas), de papéis (tarefas) e a brincadeira em si, que é sempre um storytelling riquíssimo que flui influenciado pelas decisões de cada participante, o que pode gerar resultados surpreendentes. Para mim, uma reunião de trabalho perfeita, tirando o choro, o ranho e os tapas.

E, o mais importante: cada participante “traz seu tesouro para o grupo”. Essa é a riqueza dessa estratégia.

Eu gostaria de ser um profissional mais afeito ao foco, mas consegui compensar a falta dessa qualidade “importando" concentração dentro de um grupo de trabalho. Na minha atividade, isso funciona. Para escrever uma tese, ou desenvolver uma nova vacina, talvez não. O fato é que há diversos níveis de foco possíveis e eles podem ser combinados de acordo com o seu trabalho e personalidade para se alcançar os melhores objetivos. 

Há um manual prático da FranklinCovey chamado “As quatro disciplinas da execução” que traz um ensinamento precioso a respeito disso: quando se trata de foco, de achar a maneira adequada de encontrar produtividade, o melhor é “Não resistir, adaptar”. Conciliar o tempo e mesclar profundidade com superficialidade para chegar à sua melhor fórmula, criando momentos de rigoroso foco total quando necessário, mas também espaço para a digressão saudável. Qual o percentual para cada um? Isso é com você. 

Descubra o quanto de concentração faz bem para o seu trabalho e crie o seu jeito. Se sua vontade é um músculo que cansa, o foco é a academia desse músculo. Monte a sua série de exercícios e seja feliz. 

Saul Duque1 Comment