Arboretum
76. Möbius Structure of Relationships
Lá pelos idos dos 1980, morei um tempo em Londres para aprimorar o inglês. Durante as folgas dos estudos e de minha meteórica carreira no Pizza Hut da (rua) Queensway - fui de lavador de pratos a assistente de supervisor de cozinha em apenas 4 meses - vi e fiz coisas fantásticas na cidade.
Uma delas foi frequentar o Electric Cinema da Portobello road, uma sala com mais de cem anos de idade que ficava a apenas duas quadras de onde eu morava, em Notting Hill Gate. O Electric tinha um clube de cinema com ingressos baratíssimos e eu, duro e contando as libras conquistadas com água fervente e detergente, entrei alegremente para o seu quadro social.
Todos os sábados à noite o Electric exibia “Stop Making Sense", um dos registros de show ao vivo mais impressionantes que já vi. Dirigido por Jonathan Demme, que ganhou o Oscar com “O Silêncio dos Inocentes”, o filme é uma pororoca de criatividade multimídia, onde o talento do diretor e dos Talking Heads entrelaçaram-se de tal forma que cada começo de música é uma surpresa. E cada entrada de David Byrne, o líder da banda, uma explosão.
Sobre isso, o crítico de cinema Roger Ebert escreveu:
“A esmagadora impressão em todo o filme é de uma enorme energia, da vida sendo vivida com grande alegria (…) Mas o ponto alto do filme vem da simples presença física de Byrne. Ele corre no lugar com a banda, corre pelo palco, parece tão feliz por estar vivo e fazer música... ele serve como um lembrete de como as bandas de rock se tornaram azedas, cansadas e esgotadas.”
Na primeira sessão que fui essa energia se manifestou diretamente na plateia. Já nos primeiros acordes de “Psycho Killer”, música que abre o filme, todos no cinema levantaram e começaram a dançar com suas bebidas na mão, só parando no final. Nos sábados seguintes, já estrategicamente abastecido de cerveja, vi acontecer o mesmo: semelhante ao que ocorria nos EUA nas exibições de “Rocky Horror Show”, as pessoas iam para o Electric no sábado à noite não apenas para ver o filme, mas para viver o show e dançar ao som dos Talking Heads.
Foi uma experiência marcante que me fez acompanhar de perto a trajetória da banda e, principalmente, de David Byrne, que saiu da banda para uma carreira solo que extrapolou a música e o cinema e chegou aos livros. E dos vários publicados por ele, meu favorito é “Arboretum”.
Byrne, ex-estudante de arte e design, passou anos desenhando diagramas em uma caderneta, ilustrações que ele classificou de “mapas mentais de territórios imaginários”. Em 2006 ele reuniu 92 desses desenhos em um livro. No formato de árvores evolutivas, as figuras feitas a lápis apresentam a caligrafia do autor e é possível notar o borrão das correções feitas a borracha. No prefácio, que tem como título “Por quê?”, Byrne indaga:
“O que são esses desenhos?
Por que eu os fiz?
Será que mais alguém vai se interessar por eles?
Terão algum uso?
Eles precisam ser úteis?
Bem, eu acho que são muitas coisas. Falsa ciência, escrita automática, auto-análise, sátira e até talvez uma tentativa séria de encontrar conexões onde ninguém pensava que existissem.
E uma desculpa para desenhar formas vegetais e diagramas.”
5. Hidden Roots
13. We Are What We Eat
8. Yes Means No
Do exercício de compor mapas mentais e propor conexões muitas vezes surreais surgiu um conjunto visualmente muito elegante e um conteúdo instigante, que às vezes me lembra os koans, enigmas da filosofia zen cuja solução é particular de cada um. E que a única resposta, muitas vezes, é apenas o silêncio.
Muitos dos diagramas me provocaram isso: uma reflexão silenciosa, independentemente da página aberta. Assim como as brilhantes letras de David Byrne, os textos de “Arboretum" fazem pensar. E se na música a melodia era quem trazia a beleza e a riqueza para os sentidos, no livro são os desenhos que provocam essas sensações, criando um ambiente harmônico para a mensagem.
Bônus
David Byrne já publicou nove livros, o mais recente é “Como funciona a música”. Parte do que ele escreve está nessa palestra do TED que ele fez em 2010.