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[livro de guarda]

Livros que envelhecem bem em qualquer estante.

Calma: a arte de Stephan Doitschinoff

 
Stephan Doitschinoff na capela de Santa Luzia de Tomba Surrão, Lençóis, BA

Stephan Doitschinoff na capela de Santa Luzia de Tomba Surrão, Lençóis, BA

 

Meu primeiro contato com o universo de Stephan Doitschinoff, também conhecido como “Calma”, foi há dez anos em uma mostra coletiva de arte urbana no MASP. O trabalho dele, geométrico e de cores e formas limpas, se destacava no meio dos outros artistas. Sem dúvida aquilo era arte de rua, mas ao mesmo tempo continha elementos que extrapolavam a expressão. Uma mistura que lembrava alquimia, caligrafia, grafite, tatuagem, tudo ao mesmo tempo e tudo muito original.

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Quando fui procurar mais informação sobre o artista, descobri que ele havia morado quase três anos em Lençóis, uma cidade de 10 mil habitantes do interior da Bahia, onde se alojou em um bairro quilombola da periferia e pintou casas, muros, cruzes, capelas, tumbas e o que mais lhe deixaram pintar, criando um conjunto incrível, mescla do seu estilo com a história e a religiosidade local.

Esta história está contada em “Calma, a arte de Stephan Doitschinoff”, que registra todo o trabalho feito em Lençóis e também contém cinco contos escritos por Stephan durante o tempo em que morou na comunidade. 

Aos poucos, santas, caveiras e anjos se espalharam pelo bairro acompanhados de diamantes de sangue que ora emergem das vísceras de cadáveres, ora são retratados fumando cachimbos e usando cartolas, evocando a história de exploração e violência do garimpo local. Era comum os donos das terras - e das pessoas - abrirem o estômago de seus escravos, desconfiados da possibilidade das pedras terem sido engolidas.

O fato de “Calma” ter morado no vilarejo traz uma integração da obra ao ambiente muito difícil de ser alcançada de outra forma. Visto com desconfiança no início da sua literal residência artística, Stephan conquistou os moradores, ouviu histórias, contratou ajudantes, ficou amigo do coveiro, de quem ouviu muitas histórias que enriqueceram sua abordagem.

O resultado foi um livro incrível e belo, uma visão surreal em cores vivas da exuberância do trabalho do artista com a pobreza de recursos e a riqueza da história daquela população.

Casa de Terezinha e Arlei, 2007 - Tomba Surrão

Casa de Terezinha e Arlei, 2007 - Tomba Surrão

Cruzeiro do Barro Branco, 2007 - Estrada do Barro Branco

Stephan, que é ateu, demonstrou entendimento e respeito profundos à espiritualidade local, o que impactou muito no seu trabalho. Não é à toa que seu apelido, Calma, não diz respeito à sua personalidade tranquila, mas é a contração de “com alma”, do latim c’alma.

Saul DuqueComment