Listas extraordinárias
A trágica lista de Hilary North, sobrevivente do 9/11. Ela se atrasou para o trabalho no WTC e perdeu todos os colegas
O jornalista inglês Shaun Usher adora cartas, listas e livros bonitos. Ele administra um museu virtual de cartas extraordinárias que já tem mais de 100 milhões de visitas. Quatro anos depois de inaugurá-lo, Shaun publicou o best seller “Cartas Extraordinárias” e, depois, “Listas Extraordinárias”.
Também sou fã de listas. Elas são guias rápidos do pensamento, fáceis de fazer para organizar assuntos e saborosas de consumir. Gosto de dar aos amigos playlists que componho procurando harmonizar meu gosto musical com a personalidade dos presenteados. Playlists são como caixas de bombons musicais sortidos que procuram saciar a curiosidade, ou o saudosismo, ou qual que seja a especificidade da inclinação sonora de quem vai recebê-las.
Listas. Música. Fácil constatar que “Alta Fidelidade” é um dos meus livros preferidos.
As mais de trezentas páginas de “Listas Extraordinárias” são um catálogo apaixonante e altamente variado da necessidade humana da organização, seja ela intelectual, amorosa ou artística. Gente tão diferente entre si como Einstein e Sid Vicious alinhando seus pensamentos através do recurso que o mais comum dos mortais utiliza para fazer suas compras no mercadinho da esquina.
Uma das listas mais preciosas do livro é a de regras que Susan Sontag fez para criar seu único filho. Simples, mas de uma sabedoria profunda, começa com uma recomendação que todos nós, pais, deveríamos escrever no espelho do banheiro, para ser a primeira frase vista todos os dias de manhã:
1. Ser coerente
Na lista da Chrissie Hynde, líder da banda Pretenders, conselhos para jovens roqueiras:
6. Não pense que mostrar os peitos e se oferecer vai ajudar. Lembre que você faz parte de uma banda de rock ’n’ roll. Não se trata de “fuck me”, mas de “fuck you!”
Na primeira exposição de arte moderna acontecida em solo americano, em 1912, o pintor Walter Kuhn era um dos organizadores da mostra e não tinha a menor ideia de quais artistas europeus convidar. Pediu ajuda a Pablo Picasso, que sugeriu 9 artistas, e a lista escrita na letra inconfundível de Picasso está no livro. O nome de George Braques foi acrescentado por Kuhn na base dela. Os outros são Juan Gris, Jean Metzinger, Albert Gleizes, Fernand Léger, Marcel Duchamp, Robert Delaunay, Henri Le Fauconiner Marie Laurencin e Roger de La Fresnaye.
E na lista trivial que abre o livro, outra das minhas preferidas, há uma linda declaração de amor de Johnny Cash à sua esposa June, resumida em dois itens:
2. Beijar June
3. Não beijar mais ninguém
Para quem trabalha com comunicação, há dicas de Billy Wilder para roteiristas, brainstorming da Disney para nomear os sete anões, da equipe de Thomas Edison para o nome do toca-discos e da Paramount para tentar convencer o diretor Alfred Hitchcock a mudar o nome de "Vertigo", um dos seus clássicos. Regras para o departamento de arte do Immaculate Heart College e “Como escrever”, de David Ogilvy. E dezenas de escritores e suas poéticas organizações de assuntos nas 125 listas do livro. Por causa disso, tive que fazer uma nova lista de livros para ler e conhecer melhor alguns autores com os quais não tinha muita intimidade.
“Listas Extraordinárias” é um livro para se ter sempre ao alcance da mão. Para ter o prazer de abrir aleatoriamente em uma página e ali encontrar refúgio. E para descobrir palavras inteligentemente combinadas como nos “Sete Pecados Sociais," de Gandhi, uma lista tão adequada para os dias de hoje que parece que foi escrita ontem:
Riqueza sem trabalho
Prazer sem consciência
Conhecimento sem caráter
Comércio sem moralidade
Ciência sem humanidade
Adoração sem sacrifício
Política sem princípios