The Dawn of the Color Photograph
Mongólia, 20.07.1913 - Caçadores mongóis ainda utilizavam mosquetes. Foto: Stéphane Passet
Talvez você não acredite, mas houve um tempo em que não existiam câmeras em telefones. Que não existiam câmeras digitais. Que não existiam câmeras de bolso. Que não existia o sistema SLR. Que não existia a Sony, a Panasonic e a Kodak. Que só existiam câmeras prateadas e por isso Henri Cartier-Bresson cobria a sua com fita isolante preta para fotografar as pessoas pela rua sem ser percebido. Que não existia a fotografia colorida. E isso era 1907.
Bou Saada, Argélia, 1909-11 - Cidade famosa por sua associação com os Ouled Nail, povo cujas mulheres eram treinadas na infância para dançar (às vezes nuas) provocativamente para os homens. Foto: Jules Gervais-Courtellemont
Neste ano, enquanto Picasso mudava a arte pintando as “Demoiselles d’Avignon”, cinco prostitutas saracoteando alegremente em um bordel, os irmãos Auguste e Louis Lumiére mostravam pela primeira vez ao mundo a sua nova invenção, o autochrome. Uma tecnologia que, usando como matéria-prima o amido de batata, permitia que se reproduzissem cores fiéis em fotos tiradas com as câmeras portáteis da época - portáteis na caçamba de um caminhão, diga-se. Era dado o pontapé inicial na era da cor na fotografia
Em 1909, Albert Kahn, um banqueiro francês cheio da grana e da consciência, resolveu investir o seu ervanário em um projeto fantástico. Ali, com o século 20 ainda usando fraldas, Kahn teve um cutuco de que aquele mundo ainda século-dezenoveano estava com seus dias contados, que a globalização iria chegar e pasteurizar tudo e que os povos do mundo, assim como existiam 100 anos atrás, nunca mais seriam os mesmos.
Safi, Marrocos, 21.06.1926 - Jovens se aglomeram para a câmera de Georges Chevalier neste porto pesqueiro da costa atlântica africana.
Pacifista, internacionalista e entusiasmado com o novo processo de fotografia em cores, Kahn resolveu financiar uma monumental expedição global para produzir o até então maior arquivo global da humanidade, trabalho que ele gostaria que tornasse possível a paz e o entendimento entre os povos.
Albert Kahn
Durante 24 anos o banqueiro investiu sua fortuna mandando fotógrafos profissionais aos quatro cantos do planeta para registrar culturas, povos e civilizações que seriam seriamente afetados pelas guerras, pela modernização e pelo McDonald’s. Impérios como o Austro-Húngaro e o Otomano, já extintos. As primeiras fotos em cores do Rio de Janeiro e Teresópolis. As vilas Celtas da Irlanda que hoje só existem em cores no Museu Albert Kahn, na França. O Oriente Médio antes do petróleo e a Palestina antes de Israel. A Europa dos 1900 e a Primeira Guerra Mundial.
As fotos da equipe de Albert Kanh mostram um mundo que parece não ter existido, mas as cores, as imperfeições e a maravilhosa diversidade humana estão lá, olhando para a gente desde uma centena de anos atrás.
Com o seu otimismo e pacifismo, ele paradoxalmente teve que viver em meio a três guerras. E quebrou na Grande Depressão. Mas o seu legado permaneceu e hoje pode ser visto em mais de 72 mil fotos autochrome e filmes que retratam o mundo como ele nunca mais vai ser. Um mundo do tempo em que não existiam aviões, auto-estradas e cadeias de hotéis. Nem câmeras digitais.
A Europa dos 1900 pela lente dos fotógrafos de Albert Kahn