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[livro de guarda]

Livros que envelhecem bem em qualquer estante.

The long shadow of Chernobyl

"A catástrofe nuclear de Chernobil, mais do que o início da Perestroika, foi talvez a verdadeira causa do colapso da União Soviética cinco anos depois. De fato, Chernobil foi um ponto de virada histórico: existiu a era antes do desastre, e existe a era muito diferente que veio a seguir.”

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Esse parágrafo de introdução de Mikhail Gorbachev no livro “The long shadow of Chernobyl” dá a dimensão do que foi o maior desastre nuclear da história. Algo tão terrível que, além de inutilizar para a vida humana mais de 4.200 metros quadrados de área, com consequências terríveis e duradouras para fauna, flora e as comunidades atingidas, provocou o desmoronamento de uma das duas grandes potências bélicas da época. O autor do livro, Gerd Ludwig, é um fotógrafo alemão radicado nos Estados Unidos que há décadas cobre a Rússia pós-soviética. Seu foco humanista em questões ambientais e o grande interesse nas mudanças socioeconômicas após a dissolução da URSS o levaram nove vezes a Chernobil em um período de 20 anos. Ludwig é testemunha fotográfica do lento e duradouro estrago da radiação. Diz ele: 

 
Gert Ludwig

Gert Ludwig

"Durante minhas visitas, capturei cenas pós-apocalípticas de abandono - árvores crescendo em ruas, escolas apodrecendo e prédios de apartamentos cheios de objetos pessoais deixados para trás por aqueles que fugiam às pressas de suas casas com medo. Na Zona de Exclusão, fotografei idosos retornados que, apesar da radiação, voltaram a viver suas vidas em seu próprio solo. Dentro do reator danificado, mergulhei mais fundo do que qualquer fotógrafo de documentários ocidentais. Fora da Zona, eu conheci as vítimas, desde crianças que sofrem de distúrbios físicos e mentais, até aquelas afetadas pelo aumento dramático de cânceres nas áreas de precipitação nuclear da Ucrânia e Bielorússia.”

Vesnova, Bielorússia, 2005: Igor, 5 anos de idade

Vesnova, Bielorússia, 2005: Igor, 5 anos de idade

Vesnova, Bielorússia, 2005: órfãos e crianças abandonadas com problemas físicos e mentais

Vesnova, Bielorússia, 2005: órfãos e crianças abandonadas com problemas físicos e mentais

Kiev, Ucrânia, 1993: exame de contaminação com Césio 137 em crianças

Kiev, Ucrânia, 1993: exame de contaminação com Césio 137 em crianças

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“The long shadow…” é um guia turístico do inferno. Pessoas e animais deformados, lugares abandonados, veículos radioativos. Um registro em cores do que o descaso com a natureza pode provocar. Ao mesmo tempo, tem uma beleza comovente, algo como uma “estética da radioatividade”: na zona de exclusão, naturezas mortas riquíssimas em detalhes do que foi o rápido e desesperado êxodo humano; no registro das pessoas, o desalento de quem trata das vítimas e nas vítimas, a dor e a perplexidade.

Pripyat, Ucrânia, 2005: mural de uma escola abandonada…

Pripyat, Ucrânia, 2005: mural de uma escola abandonada…

…e 2011: turistas radioativos

…e 2011: turistas radioativos

O trabalho de Gerd Ludwig é de tanta importância que o próprio líder da União Soviética na época do acidente aceitou escrever o ensaio de abertura do livro. Gorbachev, o último chefe de estado da URSS, tinha apenas 13 meses de governo quando Chernobil aconteceu. Quatro anos depois ele ganharia o Nobel da Paz por ajudar a finalizar pacificamente a guerra com os Estados Unidos.  

O relógio congelado do bloco 4 marcando a hora da explosão

O relógio congelado do bloco 4 marcando a hora da explosão

1 hora, 23 minutos e 58 segundos da madrugada de 26 de abril de 1986. O relógio que marca o horário exato do acidente segue na parede do Bloco 4, lugar altamente radioativo onde até hoje só é possível permanecer por apenas alguns segundos. Gerd Ludwig foi lá, “fundo na barriga da besta”, registrar o horror. Para que ninguém se esqueça. Para que não tenhamos que passar por isso outra vez.

Saul DuqueComment