creative director, copywriter

Crônicas

A danada da cachaça 

É comum as pessoas dizerem que “bebem pra esquecer”. Amnésia etílica é uma desculpa esfarrapada pra besteiras que a gente faz e eu, feliz ou infelizmente, nunca tive uma. Sempre lembrei muito bem e me arrependi bastante das bobagens que fiz sob o efeito do álcool. Portanto, não é o meu caso beber pra esquecer. Muito pelo contrário, cada variedade etílica que bebi me traz lembranças que vão das mais incríveis às mais constrangedoras. Sirva um drinque aí e me acompanhe.

Aprendi a beber muito tarde, em péssima companhia e consumindo líquidos de gosto duvidoso e condizentes com o orçamento do jovem de classe média. Para muitos, vinho traz lembranças sofisticadas, buquês e notas, garrafas de guarda, safras excepcionais. Para mim, vinho lembra meu fígado, que quase fugiu do meu corpo quando tomei um porre de Sangue de Boi com Baconzitos em uma festa dos colegas da arquitetura. Jurei nunca mais tomar vinho na vida, mas essas promessas que a gente faz aos dezoito anos geralmente são esquecidas dezoito minutos após a ressaca.

Cerveja geralmente lembra boteco, turma, estádio ou partida na TV, mas eu nunca gostei de beber vendo jogo. Futebol pra mim é algo tenso, focado, não me dou bem com álcool nesse tipo de situação. Levei um bom tempo pra aprender a beber cerveja, acho que assim como eu, muita gente é levada pela pressão do grupo e realmente não gosta desse negócio amargo e que fica intragável se não estiver gelada ou se você for inglês. Mas os britânicos também preparam sua comida com gordura de carneiro, então não se pode chamá-los de incoerentes. A lembrança que a cerveja me traz é daquele primeiro gole gelado que, quando você aprende a beber, despeja direto no fundo da garganta, evitando tocar na ponta da língua, que é especializada em doces e não entende porra nenhuma de amargos. Esse gole, o primeiro gole, quando o seu paladar está abrindo os trabalhos, essa sensação eu vou levar para o túmulo. Dependendo da situação, talvez estas sejam as minhas últimas palavras:

- Uma cerveja, por favor.

O pisco ganhou status desde que a culinária do Peru redescobriu os ingredientes regionais do altiplano andino, um fenômeno superbacana que tem a ver com a retomada do orgulho dos peruanos pelo seu passado indígena. Nas últimas décadas eles reescreveram a história do seu país, redefinindo a presença dos conquistadores europeus no território, trocando palavras como “descoberta" por “invasão” e chamando espanhóis genocidas como Francisco Pizarro do que eles realmente foram para as populações locais: genocidas cruéis e violentos.

Tive a felicidade de visitar o Peru três vezes, a primeira delas no início da década de 80 em uma viagem de 60 dias, passando também pela Bolívia e Paraguai. De mochila era comum a gente encontrar gente de todo o mundo e no trem que liga Cusco a Águas Calientes, a vila que serve ao parque arqueológico de Macchu Picchu, fizemos amizade com três garotas punks paulistas.

A combinação Incas, punks e brasileiros já é suficientemente insólita, mas o ingrediente final dessa encontro foi uma garrafa de pisco caseiro - rolhado com uma estopa, como se fosse um coquetel molotov - que bebemos no albergue de Águas Calientes e que deixou todo mundo mais punk que as próprias punks. E é essa noite muito louca que eu lembro quando alguém me fala de pisco.

Gim me lembra George Orwell

“Winston tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com uma simples etiqueta branca onde se lia GIM VICTORY. A bebida exalava um odor oleoso enjoativo semelhante ao da aguardente de arroz dos chineses. Winston serviu-se de pouco menos de uma xícara de chá, preparou-se para o impacto e engoliu o líquido como quem toma uma dose de remédio. No mesmo instante seu rosto ficou rubro e lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos. A substância parecia ácido nítrico e ao engoli-la a pessoa tinha a sensação de receber um golpe de cassetete na nuca. Logo em seguida, porém, a ardência no ventre esmoreceu e o mundo começou a parecer mais prazeroso."

Essa descrição que Orwell fez do gim em "1984" me fez detestar a bebida sem nunca ter provado um mísero gim tônica aguado na vida. Levei meio século para tomar o primeiro, convidado por um amigo norueguês que trouxe uma garrafa de Tanqueray para um happy hour aqui em casa. Fiquei tchuco de gim na minha primeira vez e na companhia de bons amigos. Uma lembrança bem melhor que a do Orwell que me acompanhou por décadas.

Vinho do Porto me lembra copa do mundo, mais precisamente a de 2018, que eu vi em Lisboa tomando Portônicas, uma delícia de vinho do porto branco com água tônica. Recomendo.

Uísque me lembra um porre em Gre-Nal horrível de zero a zero do Gauchão em uma noite úmida de inverno passando frio no Beira-Rio. Odeio ambos, os Gre-Nais celsorothianos de zero a zero e o uísque.

Clericot me lembra minha grande companheira e amor de toda a vida, fins de tarde no Uruguai no ritmo vagaroso dos hermanos, comendo as frutas altamente alcoólicas do jarro já seco, o aroma da parrilla tomando aos poucos o ar ao redor. É a antítese do uísque com Gre-Nal. Não há tensão, só amor, e há a Greice, e isso é o melhor que eu posso desejar na vida.

Cachaça me lembra o carnaval e vice-versa. Não sou chegado em num dos dois. Mas admito que a frase que peguei para título, da marchinha de carnaval composta por Marinósio Trigueiros Filho, é muito boa (o curioso é que o Marinósio gostava mesmo era de uísque, outra bebida que não consigo beber).

Inexplicavelmente, nenhuma bebida lembra meu aniversário, que é hoje, 5 de agosto. E talvez isso tenha me levado a escrever sobre álcool hoje, pois nunca me passei na bebida no meu aniversário. Ao invés de beber, estou comemorando escrevendo sobre bebida.

E escrever me lembra de Capote e a vodka, Dorothy Parker e o Whiskey Sour, Faulkner e os Mint Juleps, Kerouac e as Margaritas, Hunter S. Thompson e o Wild Turkey, Poe e o conhaque, Hemingway e as Mimosas, Bukowski e a cerveja com uma dose de uísque. Grandes escritores e o álcool sempre tiveram uma relação, digamos assim, especial. Mas se você vai beber e escrever, nunca esqueça da dica que dizem que é do Balzac:

“Escreva com vinho, revise com café.”

Saul DuqueComment